O PROBLEMA NÃO É SE ACHAR CHEF, É NÃO SE ENTENDER TRABALHADOR
Há, nesse movimento, uma adesão a códigos de distinção que operam silenciosamente na formação do gosto e das aspirações. Como aponta Pierre Bourdieu, “o gosto classifica, e classifica quem classifica”.
Ou seja, aquilo que o sujeito escolhe valorizar — técnicas, ingredientes, referências — não é neutro. Trata-se de um posicionamento dentro de uma hierarquia simbólica. Ao reproduzir determinados padrões de sofisticação, ele não apenas busca reconhecimento, mas também se inscreve em uma lógica que distingue, separa e hierarquiza.
E isso não é por acaso.
Os cursos, os programas de TV, as redes sociais — todos operam na fabricação de uma imagem. Uma estética da cozinha que valoriza o brilho, o prato autoral, o nome no menu, a assinatura. Mas silencia o que sustenta tudo isso: o trabalho duro, repetitivo, exaustivo e, muitas vezes, precarizado.
Não há problema algum em admirar a culinária francesa ou italiana. O problema é quando essa admiração não vem acompanhada de consciência crítica.
Quando ela reforça um imaginário colonizado, que coloca o que vem de fora como referência de excelência e relega nossas próprias tradições ao lugar do improviso ou da inferioridade.
E aí nasce uma contradição perigosa:
O sujeito quer performar sofisticação, mas não reconhece sua própria condição dentro da engrenagem.
O que se observa aqui é um processo de dissociação entre identidade e condição material. O indivíduo, ao ingressar no campo da cozinha profissional, passa a operar a partir de um imaginário fortemente orientado por signos de prestígio — técnica refinada, estética do prato, repertório eurocêntrico —, ao mesmo tempo em que se distancia da compreensão de si como parte integrante de uma estrutura produtiva.
Essa dissociação não é espontânea, mas socialmente produzida. Trata-se de um efeito de formação: escolas, mídias especializadas e circuitos de validação simbólica constroem uma narrativa em que o reconhecimento está associado à exceção, e não à condição comum do trabalho. O “chef” aparece, assim, menos como uma função e mais como uma categoria aspiracional.
Nesse contexto, a sofisticação deixa de operar como linguagem técnica ou repertório cultural e passa a funcionar como dispositivo de distinção. Ao incorporar esse dispositivo, o sujeito internaliza valores que o afastam da percepção crítica sobre sua própria inserção no processo produtivo.
O resultado é uma forma específica de alienação:
o trabalhador não apenas vende sua força de trabalho, mas também adere simbolicamente a uma posição que nega essa mesma condição.
Essa adesão tem implicações concretas. Ao não se reconhecer como trabalhador, o indivíduo tende a naturalizar relações assimétricas de poder, regimes intensivos de trabalho e formas diversas de precarização. A exploração deixa de ser percebida como tal e passa a ser reinterpretada como etapa necessária de um percurso meritocrático.
Além disso, essa lógica fragiliza a construção de vínculos coletivos. A ênfase na distinção individual — ser reconhecido, destacar-se, “chegar lá” — desmobiliza formas de solidariedade e organização entre aqueles que compartilham condições semelhantes.
Há, portanto, um duplo movimento:
de um lado, a produção de um sujeito orientado pela performance simbólica da sofisticação; de outro, o obscurecimento das relações materiais que sustentam essa mesma performance.
A engrenagem permanece invisível justamente porque é revestida por uma estética que promete transcendê-la.
Reconhecer-se como trabalhador, nesse sentido, não implica renunciar ao domínio técnico ou ao refinamento. Implica, antes, reinscrever essas dimensões dentro de uma consciência histórica e material do fazer culinário — compreendendo-o como prática social, coletiva e situada.
Sem esse reconhecimento, a sofisticação corre o risco de se reduzir a um simulacro:
um conjunto de signos descolados das condições concretas que os tornam possíveis.
A cozinha profissional, no fim das contas, é trabalho.
É corpo.
É tempo.
É hierarquia.
É produção.
Quando alguém não se entende como trabalhador, perde também a capacidade de se organizar, de reivindicar, de perceber exploração. Passa a aceitar jornadas abusivas, baixos salários e condições precárias como “parte do processo”, como se fossem um ritual necessário para alcançar um futuro de exceção que raramente chega.
A figura do “chef” funciona, muitas vezes, como uma promessa.
Mas a realidade é que a maioria seguirá sendo trabalhador de cozinha — e não há absolutamente nada de menor nisso.
Pelo contrário.
Talvez o que exista de mais nobre na culinária não esteja no prato montado com pinça, mas na construção coletiva do alimento. No saber que atravessa gerações. No trabalho invisível que sustenta a vida cotidiana.
Se entender como trabalhador não diminui ninguém.
Liberta.
Porque muda a forma de se posicionar no mundo.
Muda a forma de se relacionar com o próprio fazer.
E, principalmente, muda a forma de enxergar valor.
A questão, então, não é abandonar o sonho.
É reposicionar o olhar.
Menos espetáculo.
Mais consciência.
Menos personagem.
Mais pertencimento.
Porque antes de qualquer título, a cozinha sempre foi — e continua sendo — território de trabalho, e muito trabalho.
@charoth10
#ElCocineroLoko

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