MARLI BRITO E O PULSAR BAIANO NO SÃO VICENTE


A culinária de Marli é território de sincretismo.
Na última terça-feira, estive com Marli Brito, à frente do Restaurante São Vicente, no coração do Dois de Julho — bairro que pulsa história, fé e sabores intensos.

Desde o ano 2000, Marli construiu ali um verdadeiro microcosmo da Bahia, entre cores vibrantes, aromas sedutores e sons ritmados, o casarão colonial pintado de vermelho sintetiza as hibridações religiosas, culturais e afetivas que atravessam o território. Sua cozinha é espelho do lugar: viva, mestiça, ancestral.

Marli é referência culinária e estética no Dois de Julho. Fotografias ao lado de Maria Bethânia ornamentam as paredes, mas é no cotidiano que ela se consagra como a “mãesona” do bairro — figura que evoca uma Bahia mítica, de traços amadianos, com um pé na tradição e outro na inventividade do dia a dia.

Nascida em Irajuba, carrega consigo referências indígenas e saberes ancestrais, entrelaçados às memórias da infância e às histórias de quem veio antes. Em nossa conversa, falou das pessoas que atravessaram sua trajetória, da luta pela preservação cultural do bairro e da clientela diversa — gente simples, intelectuais, vizinhos e frequentadores fiéis que fazem do São Vicente um ponto de encontro e resistência.

É espantoso perceber que, apesar do Dois de Julho ser um território de profundo valor histórico e cultural, marcado por forte resistência simbólica, não há, segundo o que apurei, nenhuma ação direta da Prefeitura de Salvador, no âmbito do Plano Diretor, que contemple pesquisas ou planejamento urbano voltados à transformação inclusiva do sistema alimentar local. Um apagamento que contrasta com a vitalidade culinária e social do bairro.

Entre risos e relatos, Marli lançou uma frase antológica: “O luxo é o bucho.”

Herança do pai católico, o ditado revela o tesouro escondido na cozinha popular — sabores nascidos da simplicidade, do aproveitamento integral, das vísceras que outrora eram vendidas pelas Fateiras, mulheres que mercavam miúdos equilibrando gamelas na cabeça, extensão do próprio corpo. Dali também surge a expressão “cachorro de Fateira”, usada para nomear gente ligeira, inquieta, sempre em movimento.

Hildegardes Vianna (1973: 128–131) descreve com precisão esse cotidiano, chamando essas mulheres de “tias da Costa”, guardiãs de uma tradição culinária que sustentou Salvador muito antes de a palavra gastronomia virar fetiche.

É dessa linhagem que Marli vem.

Sua cozinha pulsa no ritmo da cidade: está presente nas festas populares, ergue seu pejí em homenagem ao santo padroeiro e celebra Cosme e Damião com um caruru generoso, desses que abraçam a vizinhança inteira.

Embora sonhe em dedicar-se mais aos pescados e mariscos, seu cardápio é amplo e profundamente autêntico. Nele resistem pratos quase esquecidos: galinha ao molho pardo, xinxim de bofe, sarapatel, rabada com pirão, mocotó e o inconfundível mocofato. Talvez Marli não dimensione o quanto sua culinária está impregnada de dignidade, cultura e ancestralidade.

Conversar com ela é viajar pela infância: a mãe, o doce de banana de rodinha, a cocada de banana, as bolachinhas de goma. Cada receita evoca memórias afetivas, sabores de quintal e o cuidado com folhas como hortelã-grosso e quioioiô, que equilibram e perfumam seus pratos.

Almoçar no São Vicente vai muito além de comer. É provar histórias, afetos e tradições. É sentir o pulsar do bairro e a força das mulheres que moldaram nossa culinária. É experimentar a Bahia viva nos gestos da cozinha.

Nosso encontro integra a agenda do Grupo de Estudos sobre a Culinária Baiana, movimento dedicado a reconhecer e valorizar as mulheres que construíram o sabor e o espírito da nossa cozinha, reafirmando a presença africana e diaspórica que nos atravessa.

Marli não serve apenas pratos.
Serve memória, cuidado e resistência.
Cada garfada nos reconecta à alma baiana.

O RITUAL DO MOCOFATO: MEMÓRIA EM PANELA

Preparar o mocofato não é apenas cozinhar.
É um ato de resistência e celebração.

Tudo começa com o respeito aos ingredientes de origem humilde — o mocotó (pata do boi) e o fato (bucho) — lavados, esfregados e deixados de molho no limão. Saberes herdados desde os tempos de senzala, quando o reaproveitamento era gesto de sobrevivência, mas também de dignidade.

O aroma que se espalha quando cebola, alho, urucum e louro começam a ferver é quente, terroso, acolhedor. A cor chega depois, com pimentões, tomates, coentro e hortelã, frescos e vibrantes, equilibrando a profundidade do caldo.

A união acontece quando as duas panelas se encontram. Entram em cena carnes generosas — carne de sertão, linguiça, lombo defumado — e tudo se transforma em festa compartilhada.

Ao final, o que se serve não é apenas comida.
É história, resiliência e alegria materializadas.
Uma memória que se reescreve a cada nova panela.



Serviço
📍 Restaurante São Vicente
Praça General Inocêncio Galvão — Dois de Julho, Salvador
Novo ☎️ 2137-0147 ou fale Pelo Zap 71 999036785

Aberto todos os dias.


@charoth10

#elcoconeroloko

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