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Showing posts from December, 2025

O DESEJO COLONIZADO E A SOFISTICAÇÃO COMO PROMESSA

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Achille Mbembe nos ajuda a compreender que o colonialismo não se encerra com a independência política. Ele se reinscreve nos corpos, nos desejos e nas formas de imaginar a vida boa. A colonização mais duradoura não é a do território, mas a do imaginário. Para Mbembe, a modernidade colonial produziu não apenas hierarquias raciais e econômicas, mas um regime de sensibilidade: uma forma específica de perceber o mundo, de organizar o valor das coisas e de definir o que merece ser desejado. O colonialismo ensinou quem pode aspirar, quem deve imitar e quem deve permanecer no lugar do “inacabado”. Assim, o desejo passa a operar como tecnologia de poder. Nesse regime, viver bem não é uma experiência situada no território, mas uma imagem projetada a partir do centro. A “vida boa” torna-se um ideal abstrato, frequentemente europeu, branco, urbano e consumista. O sujeito colonizado aprende a se ver como insuficiente e passa a buscar fora de si — nos objetos, nos estilos de vida e nos signos de pr...

MORRE DONA COLÓ, GUARDIÃ DAS FOLHAS E DA MEMÓRIA VIVA DO VER-O-PESO

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Morreu nesta terça-feira, em Belém do Pará, Dona Coló, nome que atravessa gerações quando se fala em folhas, ervas, cura e cuidado no Mercado do Ver-o-Peso. A informação foi confirmada por sua filha à reportagem. Dona Coló tinha 73 anos e estava internada após complicações de saúde. Mas falar de Dona Coló apenas como uma “erveira” é pouco. Ela era guardiã de um conhecimento que não cabe em livros, transmitido pelo corpo, pela escuta, pelo cheiro das folhas amassadas na mão. Por décadas, sua banca no Ver-o-Peso foi lugar de acolhimento, conselho e orientação — um espaço onde a floresta encontrava a cidade. As folhas, para Dona Coló, nunca foram mercadoria comum. Eram corpos vivos, portadores de força, memória e intenção. Arruda, priprioca, manjericão, patchouli, folhas de banho e de benzimento eram oferecidas com palavra certa, tempo certo e respeito ao que não se vê. Ali se cruzavam saberes indígenas, afro-amazônicos e populares, formando uma verdadeira farmácia ancestral a céu aberto....

COMIDA DE RUA EM NÁPOLES: CULTURA ALIMENTAR, CLASSE E PRECONCEITO

A comida de rua em Nápoles não é “exótica”, nem curiosidade turística: é cultura alimentar viva, cotidiana, popular e profundamente ligada à história da cidade. Tripas, miúdos, partes consideradas “menos nobres” circulam nas ruas há séculos — não por falta, mas por saberes acumulados, técnicas apuradas e uma relação direta entre território, classe trabalhadora e comida. Vídeos como esse cumprem uma função objetiva e didática, especialmente quando circulam em países de cultura alimentar colonizada como o Brasil. Aqui, fomos ensinados a rejeitar aquilo que não foi legitimado pela elite, pela mesa europeizada ou pelo vocabulário da “alta gastronomia”. Criou-se a falsa ideia de que vísceras, pelancas, miúdos e cortes populares são sinais de pobreza ou atraso. Lamento, mas isso é um equívoco histórico. Em muitos países europeus — Itália, França, Espanha, Portugal — essas carnes sempre foram amplamente utilizadas. São base de pratos clássicos, receitas identitárias e símbolos regionais. O q...

COMIDA COMO TERRITÓRIO DE MEMÓRIA: POR QUE A BAHIA IMPORTA NO DEBATE GLOBAL

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Pensar a comida como elo entre pessoas, territórios e histórias — como propõe a investigação de Samuel Dorf na Universidade de Dayton — é reconhecer algo que, no Brasil, e sobretudo na Bahia, nunca deixou de existir.  Aqui, a alimentação não é apenas prática cotidiana ou objeto de estudo: ela é estrutura de mundo, tecnologia social e arquivo vivo da história. No contexto brasileiro, a comida sempre funcionou como instrumento de sobrevivência, resistência e transmissão de saberes, especialmente entre populações indígenas, africanas escravizadas e seus descendentes. Diferentemente de abordagens acadêmicas que ainda tratam a culinária como apêndice cultural, no Brasil ela se organiza como sistema de conhecimento, profundamente conectado ao território, à oralidade, à fé, ao corpo e ao tempo. A Bahia ocupa lugar central nessa discussão. É um dos poucos territórios do mundo onde a comida articula, de forma inseparável, ancestralidade africana, cosmologia religiosa, ecologia local e soci...
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Albino Pé Grande: “Pai”. Assim o chamávamos. Era um doce de pessoa, temente a Deus e Clementina, a quem jurava amor a cada quarto-de-hora.  “Qualquer dia dou uma coça de beijos nessa mulher”. Coça levava, isso sim, quando transgredia o acordo : um dos dois tinha que voltar sóbrio à casa quando fossem às gandaias. Quelé narrando um retorno de ônibus da Pedra da Onça, aniversário de Carlos Cachaça – acontecimento que detalharei mais adiante. Ah! que delicia ouví-la contar dos beliscões que aplicava em Pé Grande, ele zambeteando pra cá e pra lá, de pé no ônibus, mal aguentando a sacola que era comum carregarem pras festanças. Amoroso, terno, Pé Grande levantava cedo pra disputar vaga na estiva. Os cumpadres Ivo e Pedro eram seus amigos mais constantes. Quando iam aos bares, gostavam de uma cerveja - e ela de um cinzaninho de vez em quando. Cozinheira, ah que dom maravilhoso: a feijoada de Quelé tinha os requintes de carnes fervidas em separado, e - seu segredo! - uma colher de aze...

#ESTÁPASANDO | LANÇAM LIVRO GRATUITO SOBRE A CULTURA ALIMENTAR INDÍGENA DO ÁRTICO À AMAZÔNIA

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🗓️ No início de dezembro, foi lançado na cidade de Cusco, no Peru, o livro “Cultura alimentar indígena: Território, tradição e transformação dos sistemas alimentares nas Américas”. A obra reúne saberes de dez povos e nações indígenas, do Canadá à Amazônia e aos Andes. 🧠 O livro nasce a partir de um intercâmbio de conhecimentos iniciado em maio de 2024, em Yunguilla, no Equador, onde se encontraram representantes dos povos Asháninka, Aymara, Kayambi, Cree, Inuit, Náhuatl, Maya Q’eqchi’, Métis, Misak e Wolastoquey. 🌎 Além de documentar a riqueza dos sistemas alimentares indígenas, a publicação mostra como esses sistemas vêm se transformando em estratégias de resistência diante de crises globais, como as mudanças climáticas e a insegurança alimentar. 🫔 Como destaca a obra: “Explorar os sistemas alimentares indígenas nos convida a reconhecer os pontos em comum entre diferentes geografias (…). Também nos incita a questionar nossas suposições sobre fome, má nutrição e desigualdade.” 🏜️ ...

EDUCAÇÃO, AFRICANIDADE E CULTURA ALIMENTAR: ESCOLAS DE CUIABÁ AFIRMAM IDENTIDADE E CONSCIÊNCIA ANTIRRACISTA

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Confira a receita do Pacu Assado, tradicional da culinária Cuiabana Em Cuiabá, falar de culinária africana nas escolas ainda é um desafio que revela desigualdades históricas, mas também abre caminhos potentes de transformação. Apesar da forte presença afro-brasileira na formação cultural do país, a alimentação de matriz africana muitas vezes aparece de forma superficial no ambiente escolar — restrita a datas comemorativas ou desconectada do cotidiano das crianças. Quando a escola decide ir além, ela transforma o alimento em linguagem pedagógica, identidade e consciência. Foi nesse espírito que estudantes do pré-I ao 5º ano da Escola Municipal de Educação Básica (EMEB) Profª Lidioliria Santana, localizada no bairro Residencial Baracat, participaram, na sexta-feira (28), de um grande ato coletivo de encerramento das atividades pedagógicas voltadas à Consciência Negra e à influência africana na cultura brasileira. Mais de 100 estudantes, acompanhados por professores, coordenação e direção...

CAJUÍNA: ENTRE SABER INDÍGENA, CIÊNCIA E CULTURA ALIMENTAR BRASILEIRA

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Rodolfo Teófilo aplica métodos científicos inéditos para a época: clarificação com a goma do cajueiro, esterilização por processo térmico e cuidado sanitário rigoroso. Criada no início do século XX, a cajuína nasce do encontro entre saber indígena, ciência e cultura alimentar. O farmacêutico Rodolfo Teófilo, por volta de 1900, inspira-se em uma antiga bebida indígena feita do caju, conhecida como “cim”, para desenvolver uma bebida não alcoólica, límpida e estável, capaz de preservar o sabor do fruto e ampliar seu alcance. Teófilo aplica métodos científicos inéditos para a época: clarificação com a goma do cajueiro, esterilização por processo térmico e cuidado sanitário rigoroso. O objetivo não era apenas técnico, mas profundamente humano. Em um contexto marcado pelo alcoolismo e por graves problemas de saúde pública, ele buscava oferecer uma alternativa saudável, acessível e culturalmente enraizada. A cajuína surge, assim, como alimento, cuidado e política de vida. Mais do que farmacêu...

TAMBAQUI E CURIMBA JUNTOS: ESTUDO DA EMBRAPA REVELA SISTEMA MAIS SUSTENTÁVEL E EFICIENTE

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Antes de qualquer dado, esse sistema fala de relação. Relação entre peixes, entre água e alimento, entre natureza e gente. Fala de um modo de produzir que não nasce da disputa, mas do entendimento dos ciclos — algo que comunidades ribeirinhas sempre souberam, muito antes de virar estudo ou experimento. No sistema, enquanto o tambaqui ocupa o centro, a curimba assume o papel de recicladora do ecossistema. Seus hábitos alimentares são complementares: ela se alimenta do que sobra, do que cairia fora no monocultivo, sem competir, sem interromper, sem disputar espaço ou crescimento. Onde o modelo industrial enxerga resíduo, a natureza reconhece função, equilíbrio e continuidade. Essa integração não produz apenas mais peixe. Produz sentido. Ensina que abundância não vem do excesso, mas do encaixe; que eficiência não está em forçar a natureza, e sim em escutá-la. É um sistema que alimenta corpos, territórios e culturas — e lembra que sustentabilidade, antes de ser técnica, é uma forma de conv...

POR QUE O BRASIL AINDA TEM DIFICULDADE DE VALORIZAR O QUE ALIMENTA SEU PRÓPRIO TERRITÓRIO?

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Por que seguimos celebrando o que vem de fora enquanto deixamos que o que é nosso seja produzido, narrado e lucrado por outros? O tambaqui não é apenas um peixe. Ele é território, memória e tecnologia ancestral amazônica. Ainda assim, enquanto o Brasil hesita em reconhecer seu valor estratégico, a China ultrapassa o país e se torna a maior produtora mundial de tambaqui. O dado não é apenas econômico — é cultural, político e simbólico. Nascido das águas lentas e profundas da Amazônia, o tambaqui (Colossoma macropomum) cresceu junto com a floresta. Alimenta-se de frutos, sementes e castanhas que caem das árvores e, ao fazê-lo, replanta a própria floresta. É peixe e é semeador. Proteína e ecologia no mesmo corpo, algo que a ciência hoje valida, mas que os povos amazônicos sempre souberam. Na cultura alimentar brasileira, especialmente amazônica, o tambaqui ocupa um lugar de centralidade. Não é iguaria rara, nem comida de exceção: é alimento estruturante. Sustenta famílias, atravessa geraç...

PREMIADO PELA ONU, FOTÓGRAFO BAIANO LANÇA ENSAIO SOBRE A COMIDA DE ORIXÁ E A CULTURA ALIMENTAR AFRO-BRASILEIRA

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Exposição internacional destaca ingredientes como dendê, milho, feijão e inhame como fundamentos da culinária tradicional e do Candomblé O fotógrafo documental baiano André Fernandes, premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), apresenta no circuito internacional de artes o ensaio fotográfico “Ounjẹ Òrìṣà: Comida de Orixá” (2025), em cartaz em Assunção, no Paraguai. A série reúne dezesseis fotografias que colocam a cultura alimentar afro-brasileira no centro da narrativa, evidenciando o alimento como patrimônio religioso, ancestral e cultural. A nova produção dialoga com a série “Orixás” (2014), também reconhecida pela ONU, aprofundando o olhar sobre a culinária tradicional do Candomblé. Desta vez, o foco está nos alimentos ritualísticos que estruturam a alimentação de matriz africana no Brasil, como dendê, milho, feijão, inhame e coco, ingredientes que atravessam séculos de história, resistência e transmissão de saberes. Em exibição no Instituto Guimarães Rosa, a mostra atraiu ...

CARANGUEJO E SIRI NA BAHIA: POR QUE ESSES TESOUROS DA CULINÁRIA TRADICIONAL AINDA NÃO TÊM O VALOR QUE MERECEM?

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Notícia fresquinha do notjournal.ai , nos dá conta de que o Caranguejo vira novo símbolo do luxo gastronômico. Enquanto ingredientes considerados de luxo, como caviar e wagyu, se popularizam em cardápios de fast-food e perdem seu caráter exclusivo, o caranguejo segue como um dos últimos símbolos globais de opulência gastronômica. Em mercados internacionais, espécies raras alcançam preços exorbitantes.  Na Bahia, porém, caranguejo e siri — pilares da culinária tradicional — continuam subvalorizados, tanto economicamente quanto simbolicamente. Essa contradição revela muito mais sobre desigualdade, território e colonialismo alimentar do que sobre comida em si. CARANGUEJO E SIRI: BASE DA CULINÁRIA TRADICIONAL BAIANA Na Bahia, o caranguejo e o siri não são tendência nem moda gastronômica. Eles fazem parte da cultura alimentar costeira, dos manguezais, das marés e do cotidiano das comunidades tradicionais. São ingredientes centrais em pratos como: moqueca de siri; ensopado de caranguejo;...

CHOCOLATE YANOMAMI HOMENAGEIA SEBASTIÃO SALGADO EM EDIÇÃO ESPECIAL

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Coleção de bombons e fotos de Sebastião Salgado (Diogo Yanato/Divulgação)  Cacau nativo da Amazônia une fotografia, território e resistência indígena O Chocolate Yanomami em homenagem a Sebastião Salgado é uma edição especial que vai além do universo gastronômico. Produzido com cacau amazônico nativo, proveniente de comunidades indígenas Yanomami e Ye’kwana, o projeto conecta cultura alimentar, preservação ambiental, fotografia documental e soberania territorial. Mais do que um chocolate de origem, trata-se de um gesto político que confronta o garimpo ilegal, a destruição da floresta e a fome imposta aos povos originários da Amazônia. Cacau Yanomami: floresta, tempo e saber ancestral O cacau utilizado nessa edição especial não vem de monocultura nem de fazendas abertas com desmatamento. É cacau nativo amazônico, muitas vezes espontâneo, manejado em sistemas agroflorestais tradicionais, integrados à floresta viva. Para os povos Yanomami e Ye’kwana, o cacau não é mercadoria. Ele...

SABERES TERENA: A CULTURA ALIMENTAR COMO CAMINHO PARA A SAÚDE

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Em um dia de dezembro, a Câmara Municipal de Miranda, no Mato Grosso do Sul, se transformou em um grande espaço de diálogo entre passado e presente. O motivo era a I Mostra de Experiências sobre Segurança Alimentar, que marcou o encerramento de um projeto de um ano dedicado a qualificar Agentes Indígenas de Saúde (AIS) do povo Terena. O evento não celebrou apenas a conclusão de um curso, mas a valorização de um patrimônio: a cultura alimentar tradicional como ferramenta vital para enfrentar desafios modernos de saúde, como a obesidade e a má nutrição. O projeto "Alimentando Tradições, Cultivando Saúde" foi financiado pela Fundect e Semadesc e executado por uma rede de instituições, incluindo a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MS) por meio de suas escolas técnicas. Seu grande objetivo era integrar o conhecimento técnico do Sistema Único de Saúde (SUS) com os saberes tradicionais Terena, formando agentes de saúde que atuam nas próprias aldeias . 🍃 Do saber ancestral ao mater...

HERANÇAS COLONIAIS NA ALIMENTAÇÃO BRASILEIRA

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Cultura alimentar, poder e desigualdade social Para finalizar o ano, fiz um apanhado das tendências que precisam ser observadas com atenção no próximo ciclo — não como modismos, mas como sinais de disputa sobre o futuro da comida, do território e da vida cotidiana. A Mesa como Arquivo Colonial A alimentação brasileira é um documento vivo da violência colonial. Cada escolha alimentar, cada prato celebrado como "típico" e cada fome não saciada carregam em suas camadas históricas as marcas de um projeto civilizatório que transformou comida em instrumento de poder. Mais do que herança culinária, herdamos estruturas profundas de desigualdade: uma organização produtiva que priorizou a exportação em detrimento da subsistência, uma hierarquia simbólica que racializou sabores e uma lógica de controle que usou a fome como tecnologia de dominação. Esta análise desembrulha essas camadas, demonstrando como a colonialidade alimentar não é relíquia do passado, mas sistema operacional do pre...