LIVRO DESCONHECIDO DE CLARICE LISPECTOR É ENCONTRADO EM SÃO PAULO E REACENDE DEBATE SOBRE CULTURA ALIMENTAR
Segundo reportagem da Equator Magazine, o livro, datado de 1970, foi adquirido pelo livreiro Gilvaldo Amaral Santos, que identificou a assinatura da autora logo nas primeiras páginas.
A publicação, produzida pelo Centro Nestlé de Economia Doméstica, reúne receitas lúdicas e acessíveis — como “bolo peteleco”, “mingau engraçado” e “barcos de salsicha” — evidenciando uma culinária voltada ao cotidiano, ao brincar e à iniciação alimentar.
Embora não se trate de uma obra literária central na trajetória da autora, o achado revela uma faceta pouco explorada de Clarice: sua aproximação com a cultura alimentar doméstica e com práticas pedagógicas ligadas à cozinha. Para Moser, o texto de abertura carrega marcas inconfundíveis da escritora, especialmente pelo tom que remete à sua produção voltada ao público infantil.
Mais do que uma curiosidade bibliográfica, “Cozinha para brincar” levanta questões sobre memória, circulação e apagamento de saberes. Diferente dos livros consagrados, obras como essa — produzidas em contextos comerciais e cotidianos — frequentemente escapam dos circuitos tradicionais de preservação. O resultado é um vazio na documentação de práticas alimentares e culturais que estruturam a vida comum.
Nesse sentido, o livro encontrado não apenas amplia o repertório sobre Clarice Lispector, mas também evidencia como a culinária pode ser um território de linguagem, afeto e transmissão de conhecimento. Entre receitas simples e nomes inventivos, emerge uma cozinha que dialoga com a infância, com o improviso e com o imaginário — dimensões muitas vezes negligenciadas nos registros oficiais da cultura.
Como lembra Moser, evocando uma antiga máxima latina, “os livros têm seu próprio destino”. E, às vezes, é na cozinha — e não nas estantes — que eles continuam vivos.
@charoth10

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