Há algo que Luís da Câmara Cascudo já nos ensinava com delicadeza e firmeza: comer não é apenas um ato biológico — é um gesto de pertencimento. Em sua leitura do Brasil, a comida nunca aparece isolada; ela vem carregada de vozes, de gestos repetidos, de territórios e de afetos que se acumulam no tempo.

Antes mesmo de sabermos nomear os sabores, já estamos sendo atravessados por eles. A cozinha, para Cascudo, é uma escola silenciosa onde se aprende sem perceber: aprende-se o gosto, o costume, o ritmo da vida. É ali, entre o pilão, o fogo e as mãos que insistem, que se formam não apenas receitas, mas formas de estar no mundo.

Por isso, quando falamos de comida caseira, não estamos falando apenas de preparo — estamos falando de memória organizada em sabor. Cada prato traz consigo uma espécie de herança invisível, um repertório afetivo que molda nossas escolhas futuras, nossos desejos e até nossas recusas.

E é justamente nesse ponto que o texto de Andoni Luis Aduriz nos provoca: se o paladar é construído na repetição e no vínculo, o que acontece quando esse território íntimo da comida é atravessado por lógicas externas, industriais e cada vez mais homogêneas?

“É isso que a comida caseira tem: a cada mordida, ela funde uma camada de familiaridade que derrete sobre as lembranças e as emoções favoráveis, como um queijo cheddar diante do calor. E, claro, os pratos celebrados no seio do lar, além de deliciosos, supõe-se que vêm acompanhados de características que os diferenciam dos alimentos embalados produzidos em série. Associamos as habilidades domésticas a ingredientes frescos e da estação, a um tratamento manual cheio de dedicação e cuidado que, além de nutritivo, carrega uma carga sentimental — mesmo quando a massa, o molho de tomate, o embutido e o lácteo são de origem industrial. Porque nem todos os processados são ruins, como ocorre com o azeite de oliva, o pão integral ou o leite pasteurizado, nem todos os pais se envolvem na dimensão saudável da alimentação.

Talvez por desconhecimento, certamente por impossibilidade, ignora-se que, no caminho até a memória, há um cérebro que, em sua fase de desenvolvimento, possui maior receptividade aos estímulos sensoriais. Esse órgão pode se habituar ao falafel, ao cozido madrilenho, ao kimchi, à merluza em molho verde, à feijoada ou aos alimentos globalizados cada vez mais homogêneos que, à base da repetição, acabam gerando nas crianças marcas que se conectam com vínculos emocionais, dando forma às preferências alimentares e à relação com a comida. A voz reconhecível da mãe, os gestos familiares do pai, a rotina das expressões tantas vezes observadas da avó, os momentos amarrados a cheiros ou os sabores elogiados formam um habitat no qual nos movemos com naturalidade; são uma paisagem íntima onde nos reconhecemos.

No entanto, para muitas crianças ao redor do mundo, esse ambiente se complementa — ou mesmo foi substituído — pelos sons dos anúncios por alto-falantes, funcionários falando com clientes, o toque da porta, a música ambiente ou as caixas registradoras das redes de fast food.”


📌 Link do texto original (Universidad Veracruzana):

https://libros.uv.mx/index.php/UV/catalog/view/FC278/1087/1179-1⁠


@charoth10


#ElCocineroLoko 

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