ATO DE CELEBRAÇÃO: O SAGRADO SABOR DA LIBERDADE E A FORÇA DA LEI 10.639


Salvador, 08 de abril de 2026, nesta data, às 13h, o Salão Nobre da Universidade Federal da Bahia, no bairro da Canela, torna-se palco de um momento histórico. Celebramos o Dia Nacional das Tradições Africanas e Nações do Candomblé, um tributo à resiliência de um povo que transformou dor em fé e silêncio em cultura.

Este ano, o ato ecoa o espírito da Lei 10.639/2003 — que há mais de duas décadas tornou obrigatório o ensino da História da África e da Cultura Afro-brasileira . Mais do que uma formalidade acadêmica, a lei é uma reparação simbólica, uma lente que recoloca a ancestralidade negra no centro da formação da identidade brasileira, combatendo o racismo estrutural com o conhecimento.

O Legado Alimentar: Onde a Fé Encontra a Resistência

Ao falarmos de tradição e lei, é impossível não nos voltarmos para a cozinha. No universo do Candomblé, o chão da cozinha é tão sagrado quanto o barracão. É ali que o alimento se torna a ponte entre o humano e o divino.

“O candomblé é feito dentro da cozinha. Cada orixá tem a sua comida, o seu preparo especial. A comida para nós serve para tudo, seja para agradecer, para festejar ou pedir saúde e proteção”.

Enquanto a lei 10.639/03 abriu as portas das escolas para essa história, foram os terreiros que, por séculos, funcionaram como as verdadeiras universidades da cultura afro-brasileira, guardando a sete chaves os segredos do acarajé, do abará, do caruru e do vatapá .

· Alimento como Identidade: O ato de cozinhar foi uma ferramenta de reconstrução da identidade para os africanos escravizados. Ao temperar o quiabo e o dendê, eles não apenas alimentavam o corpo, mas matavam a saudade da terra e resistiam ao sistema que tentava apagá-los .

· Alimento como Fé: Comer a "comida de santo" é um ato de comunhão. Como dizem os mais velhos: “Quem come a comida de santo não passa fome, pois é um alimento abençoado que supre as necessidades do corpo e também da alma” .

· Alimento como Luta: Celebrar o acarajé é também um ato político contra a intolerância. Reconhecer que ele "tem dono" (Iansã) e que foi vendido por "ganhadeiras" que conquistaram a liberdade com o trabalho é combater a apropriação cultural e o racismo religioso que ainda insiste em demonizar o sagrado.

Conclusão

Que neste 08 de abril de 2026, na UFBA, possamos compreender que a Lei 10.639 é o decreto, mas o alimento é a memória viva.

Ao saborear ou simplesmente respeitar o legado dessas comidas, honramos os orixás, os ancestrais e a luta diária dos povos de terreiro. Preservar essa culinária é garantir que a história e a fé do povo afro-brasileiro continuem a nutrir as próximas gerações — dentro e fora das salas de aula.

🌿 Axé!


@charoth10

#ElCocineroLoko 

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