TRANSIÇÃO ALIMENTAR ENTRE POVOS INDÍGENAS AVANÇA E IMPACTA SAÚDE, CULTURA E TERRITÓRIO — EXPERIÊNCIA ENTRE OS PAYAYÁ REACENDE ALERTA
Uma revisão narrativa publicada na revista Nutrição (fev. 2025) aponta que a crescente substituição de alimentos tradicionais por produtos industrializados está associada ao aumento de doenças crônicas e à fragilização de práticas culturais ancestrais.
O estudo, conduzido por Tatiane Cibelle Pereira da Silva sob orientação da professora Poliana Coelho Cabral, analisou produções científicas recentes (2018–2024) e identificou um padrão preocupante: a redução do consumo de alimentos originários dos territórios — como raízes, frutas nativas, sementes e preparações coletivas — vem sendo acompanhada pela entrada massiva de ultraprocessados ricos em açúcar, gordura e aditivos.
Segundo a pesquisa, esse processo, conhecido como transição alimentar, está diretamente relacionado ao aumento de casos de diabetes tipo 2, hipertensão e obesidade em diversas comunidades indígenas. Mas os impactos não param no corpo.
Cultura em risco
A alimentação, nesses contextos, não é apenas fonte nutricional— é memória, identidade e tecnologia social. A perda de práticas alimentares tradicionais representa também a erosão de saberes transmitidos oralmente entre gerações.
Durante o último Carnaval, uma vivência no território do povo Payayá, no interior da Bahia, revelou uma outra dimensão dessa discussão — menos estatística, mais sensível e concreta.
Ali, a comida ainda nasce do território e do tempo.
Entre os Payayá, a cultura alimentar está profundamente conectada à relação com a terra, com os ciclos naturais e com a coletividade. O preparo dos alimentos não se separa da vida cotidiana: envolve o cultivo, a coleta, o cuidado com as sementes e a partilha. Raízes, folhas, frutos e preparações simples carregam histórias e modos de fazer que resistem, apesar das pressões externas.
O que se observa, no entanto, é uma tensão crescente. De um lado, a permanência de práticas ancestrais; de outro, a entrada de alimentos industrializados, muitas vezes impulsionada por políticas públicas desajustadas, dificuldades de acesso a territórios tradicionais e mudanças socioeconômicas.
Entre o pacote e o território
A presença de produtos ultraprocessados nas aldeias não é apenas uma escolha individual — ela reflete um sistema alimentar que avança sobre territórios e redefine hábitos.
Nos Payayá, como em muitos outros povos, isso cria um cenário híbrido: o alimento que vem do mato convive com o alimento que vem do pacote.
Mas essa convivência não é neutra.
Enquanto o alimento tradicional fortalece vínculos comunitários e carrega densidade nutricional, o industrializado tende a romper ritmos, simplificar preparos e enfraquecer a relação com o território. O resultado é duplo: impacto na saúde física e deslocamento cultural.
Resistência e continuidade
Apesar dos desafios, a experiência no território Payayá também revela caminhos de resistência. A manutenção de roçados, o uso de plantas alimentícias tradicionais e os momentos coletivos de preparo e partilha mostram que a cultura alimentar segue viva — ainda que pressionada.
A revisão científica reforça o que já se percebe no chão: preservar a alimentação tradicional não é apenas uma questão nutricional, mas um ato político e cultural.
Num momento em que o debate sobre sistemas alimentares ganha força, os povos indígenas seguem apontando algo essencial: comer é também pertencer.
E quando se perde o modo de comer, perde-se, pouco a pouco, o modo de existir.
@charoth10
#ElCocineroLoko

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