RESISTÊNCIA E TRANSIÇÃO
À primeira vista, quase nada.
De um lado, um líder político associado a discursos agressivos e a uma política marcada pela lógica do confronto permanente. De outro, comunidades digitais que transformaram o ressentimento masculino em ideologia. E, aparentemente distante desse cenário, um dos chefs mais celebrados da culinária contemporânea, fundador do influente Noma.
Mas, quando observados com mais atenção, esses fenômenos revelam traços surpreendentemente semelhantes.
Eles emergem de um mesmo imaginário de poder que atravessa a contemporaneidade: o culto ao homem excepcional, a valorização da conquista, a naturalização da hierarquia e a crença de que a força — simbólica ou real — legitima o domínio sobre os outros.
Na política, essa lógica aparece na figura do líder que se apresenta como salvador, disposto a travar guerras culturais e fratricidas em nome de uma suposta restauração da ordem.
Nas redes digitais, ela se manifesta nos discursos Redpill, que transformam frustrações pessoais em narrativas de superioridade masculina e de desprezo pelo feminino.
E na alta culinária, durante muito tempo, ela se traduziu no mito do chef genial: o criador absoluto, cuja autoridade dentro da cozinha raramente era questionada.
O que esses três universos compartilham é um mesmo modelo simbólico de poder — profundamente marcado por uma masculinidade conquistadora, competitiva e hierárquica.
Talvez por isso as crises que hoje atravessam esses campos pareçam tão semelhantes. A política enfrenta um desgaste crescente do modelo do líder forte. As redes sociais expõem os limites das culturas de ressentimento masculino. E a culinária começa a questionar o mito do chef autoritário que governa sua cozinha como um território de domínio.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a trajetória de indivíduos específicos, mas o esgotamento de um imaginário.
Um imaginário que transformou conquista em virtude, poder em espetáculo e genialidade em justificativa para a violência simbólica.
Talvez estejamos vivendo o momento em que esse modelo começa, finalmente, a ser interrogado.
A recente renúncia de René Redzepi ao comando do Noma, após semanas de desgaste provocadas por denúncias de humilhações e práticas abusivas no ambiente de trabalho, abre uma janela importante para refletirmos não apenas sobre a figura do chef, mas sobre o próprio modelo de poder que estrutura grande parte da chamada alta culinária contemporânea.
Redzepi reconheceu erros do passado e anunciou novas iniciativas. O gesto, em si, parece apontar para uma tentativa de reparação. No entanto, a pergunta que permanece é se estamos diante de uma verdadeira autocrítica — ou apenas de um movimento de reposicionamento dentro de um sistema que começa a mostrar sinais claros de esgotamento.
Durante décadas, a figura do chef genial foi construída como um arquétipo quase heroico: o criador visionário, movido por uma busca obsessiva pela excelência, capaz de reinventar sabores, técnicas e narrativas culinárias. Nesse imaginário, o restaurante torna-se uma espécie de laboratório criativo — mas também um teatro de poder. A brigada de cozinha, organizada segundo uma rígida hierarquia herdada do modelo militar de Auguste Escoffier, estabelece um ambiente em que disciplina, pressão extrema e submissão são frequentemente naturalizadas como parte do processo criativo.
É nesse ponto que o caso Redzepi revela algo mais profundo: ele não é apenas a história de um indivíduo, mas o sintoma de um sistema.
A cultura da alta cozinha internacional foi, por muito tempo, estruturada em torno de um protagonismo masculino quase absoluto. Nesse universo, o chef encarna a figura do conquistador — alguém que domina o tempo, a matéria e as pessoas ao seu redor em nome da criação. O sofrimento dentro da cozinha passa então a ser interpretado como uma espécie de rito de passagem, uma pedagogia da dureza que justificaria abusos em nome da excelência.
Essa lógica revela um paradoxo inquietante: a culinária, que nasce historicamente como prática de cuidado, de partilha e de construção de vínculos, transforma-se em um campo onde a violência simbólica e emocional pode ser legitimada como virtude criativa.
Tal contradição nos convida a recorrer ao pensamento de Michel Foucault. Em seu ensaio O que é um autor?, Foucault questiona a ideia de autoria como expressão de um sujeito isolado e genial. Para o filósofo, a obra nunca é produto de um indivíduo sozinho; ela emerge de uma rede de relações, saberes e práticas coletivas.
Aplicada ao universo da cozinha, essa perspectiva desmonta o mito do chef como criador absoluto. Um prato, um menu ou um restaurante não são obras individuais: são construções coletivas que envolvem agricultores, pescadores, cozinheiros, lavadores de prato, pesquisadores, comunidades e territórios. A insistência na figura do “autor genial” acaba por invisibilizar essa rede e concentrar o poder simbólico em uma única pessoa.
Mas essa hierarquia simbólica não se limita ao campo da cozinha. Ela ecoa uma divisão histórica mais profunda entre arte e artesanato.
Ao longo da história ocidental, a chamada “grande arte” foi frequentemente associada ao domínio do intelecto, da autoria individual e da genialidade — valores tradicionalmente atribuídos ao universo masculino. Já o artesanato, as manualidades e os saberes do fazer cotidiano foram relegados a uma posição secundária, vistos como práticas utilitárias ou menores. Não por acaso, esses campos foram historicamente ocupados e transmitidos por mulheres.
A cozinha doméstica, o cuidado com os alimentos, o manejo das ervas, os modos de conservar, fermentar e transformar ingredientes — todos esses conhecimentos nasceram e foram preservados majoritariamente em espaços femininos. No entanto, quando a culinária passa a ser institucionalizada como “alta cozinha”, ela é frequentemente apropriada por figuras masculinas que se tornam seus autores legitimados.
Assim, aquilo que era manualidade cotidiana transforma-se em obra assinada. O gesto coletivo torna-se criação individual. O saber compartilhado passa a ser convertido em capital simbólico.
Essa transformação revela uma lógica de poder que atravessa não apenas a culinária, mas todo o sistema cultural moderno: o que é associado ao cuidado, ao cotidiano e ao feminino tende a ser desvalorizado; o que se vincula à autoria, à inovação e à excepcionalidade tende a ser elevado à condição de arte.
Nesse sentido, o chef estrelado ocupa um lugar que lembra o do artista consagrado. Sua cozinha torna-se palco de performance criativa, e seu nome passa a funcionar como marca de autoridade estética. O problema surge quando esse sistema de consagração começa a legitimar também práticas de dominação e violência simbólica dentro das cozinhas.
É nesse ponto que o caso Redzepi ganha dimensão estrutural. Ele expõe os limites de um modelo que, durante muito tempo, naturalizou a ideia de que a genialidade justificaria quase tudo — inclusive ambientes de trabalho marcados por humilhações, exaustão e relações profundamente hierárquicas.
Talvez o que esteja ruindo não seja apenas a reputação de um chef, mas toda uma estrutura de legitimidade construída ao redor da ideia de genialidade individual. Quando o prazer de cozinhar — de criar, de encantar, de compartilhar — cede lugar à lógica da conquista, da fama e do prestígio, algo fundamental se perde no caminho.
A alta culinária passa então a reproduzir, em escala concentrada, as tensões mais profundas da sociedade contemporânea: a aceleração do tempo, a exploração do humano pelo humano e a transformação da criatividade em instrumento de poder.
Nesse contexto, os grandes guias gastronômicos — como o Guia Michelin — também precisam ser interrogados. Durante décadas, eles funcionaram como árbitros da excelência culinária, premiando inovação técnica, sofisticação estética e coerência conceitual. Mas raramente consideraram as condições humanas nas quais essa excelência é produzida.
Talvez tenha chegado o momento de ampliar os critérios de reconhecimento.
Se esses guias desejam continuar sendo faróis da culinária contemporânea, não deveriam apenas destacar os restaurantes mais criativos, mas também apontar modelos de trabalho mais justos, mais humanos e mais civilizatórios. Restaurantes que consigam produzir beleza e sabor sem transformar suas cozinhas em ambientes de exaustão e sofrimento.
A crise que envolve Redzepi pode ser lida, portanto, como um sintoma — mas também como um convite.
Um convite para repensar nossa relação com o tempo da cozinha, com o valor do trabalho coletivo e com a própria ideia de criação. Talvez o verdadeiro futuro da culinária não esteja na figura do chef conquistador, mas na reconstrução de uma prática que volte a reconhecer o valor dos gestos manuais, dos saberes compartilhados e das culturas alimentares que sempre sustentaram o ato de cozinhar.
Porque, no fim das contas, cozinhar nunca foi apenas produzir pratos extraordinários.
Sempre foi, antes de tudo, um gesto profundamente humano de cuidado, de memória e de vida. 🍃🍲
@charoth10
#ElCocineroLoko

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