QUE FAZ UMA EUROPEIA SE ENCANTAR PELOS RITUAIS DO PILÃO?


A pergunta pode parecer simples, mas revela uma história profunda de encontros culturais, pesquisa e sensibilidade humana. No caso da pesquisadora, chef e curadora cultural Marie‑Josée Ordener, a resposta passa por décadas de trabalho dedicadas a compreender a culinária tradicional como território de memória, identidade e transformação social.

Radicada em Marseille, uma das cidades mais plurais do Mediterrâneo, Ordener construiu uma trajetória singular ao trabalhar na intersecção entre cozinha, arte e investigação cultural. Sua atuação parte de uma premissa clara: os gestos da cozinha carregam histórias, saberes e cosmologias inteiras.

Um laboratório cultural em Marseille

Parte importante dessa trajetória está ligada ao espaço cultural La Friche la Belle de Mai, um grande centro de criação instalado em uma antiga fábrica de tabaco em Marseille. Ali, Marie-Josée Ordener ajudou a desenvolver projetos que utilizam a culinária como ferramenta de encontro entre artistas, cozinheiras tradicionais, migrantes e pesquisadores.

Mais do que um restaurante ou cozinha experimental, a proposta da Friche é transformar a mesa em dispositivo cultural — um lugar onde arte, política, migração e memória se encontram.

Nesse contexto, Ordener atuou como curadora de projetos culinários e culturais, organizando encontros que aproximam cozinhas do Mediterrâneo, da África e da diáspora.

La Ruta del Pilón: o som da cozinha ancestral

Um dos projetos mais marcantes ligados à sua trajetória é La Ruta del Pilón, uma investigação cultural que conecta experiências culinárias entre Colombia, Nigeria e France.

O ponto de partida é um objeto presente em inúmeras cozinhas tradicionais: o pilão.

Usado para moer grãos, preparar temperos ou transformar alimentos, o pilão é também um instrumento que produz ritmo, som e gestualidade. Em muitas culturas africanas e afro-diaspóricas, o ato de pilonar envolve ritmos coletivos, cantos e práticas comunitárias.

Em La Ruta del Pilón, mulheres de diferentes territórios compartilham técnicas, histórias e performances que mostram como esse utensílio atravessou o Atlântico e se transformou em símbolo de continuidade cultural.

O projeto revela que cozinhar não é apenas preparar alimentos.

É também reproduzir gestos que atravessam gerações.

Mulheres, território e transmissão de saberes

Grande parte do trabalho de Marie-Josée Ordener se concentra no reconhecimento do papel das mulheres guardiãs da cozinha tradicional.

Em encontros culinários realizados entre Europa, África e América Latina, ela busca destacar:

o conhecimento transmitido oralmente nas cozinhas domésticas

o uso de plantas e ingredientes tradicionais

a relação entre alimentação, território e identidade cultural

a importância das cozinheiras populares na preservação da memória alimentar

Essas iniciativas aproximam saberes frequentemente ignorados pelas narrativas oficiais da culinária, revelando que muitas tradições gastronômicas nasceram nas mãos de mulheres e comunidades invisibilizadas.

Kos-Kos Festival e o livro sobre o Cuscus

Outro eixo importante do trabalho de Ordener é sua relação com o Kos-Kos Festival, evento europeu que celebra o cuscuz e as tradições alimentares do Magrebe, conectando comunidades migrantes e chefs locais em torno de sabores, histórias e música.

A partir dessa experiência, ela também lançou um livro sobre o cuscus, que vai além da receita: é uma investigação cultural, histórica e sensorial sobre como este alimento atravessou continentes, se transformou em símbolo de hospitalidade e identidade, e permanece central nas mesas de famílias, festivais e comunidades migrantes.

Esses projetos reforçam sua abordagem: comida é memória, território e gesto político, e cada alimento, como o cuscus ou o pilão, carrega histórias de mobilidade, resistência e criatividade.

Mulheres, território e transmissão de saberes

Grande parte do trabalho de Marie-Josée Ordener se concentra no reconhecimento do papel das mulheres guardiãs da cozinha tradicional. Em encontros culinários realizados entre Europa, África e América Latina, ela busca destacar:

o conhecimento transmitido oralmente nas cozinhas domésticas

o uso de plantas e ingredientes tradicionais

a relação entre alimentação, território e identidade cultural

a importância das cozinheiras populares na preservação da memória alimentar

Essas iniciativas aproximam saberes frequentemente ignorados pelas narrativas oficiais da culinária, revelando que muitas tradições gastronômicas nasceram nas mãos de mulheres e comunidades invisibilizadas.

Um encontro marcado pela humanidade

Conhecer Marie-Josée Ordener é perceber que seu trabalho não se limita à pesquisa ou à curadoria cultural.

Há nela uma escuta atenta e uma forma profundamente humana de lidar com as questões sociais que atravessam a culinária tradicional. Em vez de tratar essas cozinhas como exotismo ou tendência gastronômica, Ordener se aproxima delas com respeito, reconhecendo que ali existem histórias de resistência, trabalho e transmissão cultural.

Tê-la encontrado foi um verdadeiro prazer — não apenas pela riqueza de suas ideias, mas pela forma generosa com que dialoga com diferentes territórios e comunidades.

Em um momento em que a comida muitas vezes é transformada em espetáculo ou produto de luxo, o trabalho de Marie-Josée Ordener lembra algo essencial:

a cozinha continua sendo um dos lugares mais potentes de encontro entre culturas, memória e humanidade. 🌍🍲


La question semble simple, mais elle ouvre une histoire riche de rencontres culturelles, de recherche et de sensibilité humaine. Pour la chercheuse, cheffe et curatrice Marie-Josée Ordener, la réponse se construit à travers des décennies de travail consacrées à comprendre la cuisine traditionnelle comme un territoire de mémoire, d’identité et de transformation sociale.

Installée à Marseille, ville méditerranéenne plurielle par excellence, Marie-Josée Ordener a développé une trajectoire singulière à l’intersection de la cuisine, de l’art et de l’investigation culturelle. Sa démarche repose sur une conviction forte : les gestes culinaires portent des histoires, des savoirs et des cosmologies entières.

Un laboratoire culturel à Marseille

Une partie importante de son travail se déroule au sein de La Friche la Belle de Mai, un grand centre culturel installé dans une ancienne usine de tabac. Là, Ordener participe à des projets qui utilisent la cuisine comme outil de rencontre entre artistes, cheffes traditionnelles, migrant·e·s et chercheur·e·s.

Plus qu’un simple restaurant ou laboratoire culinaire, La Friche transforme la table en dispositif culturel, un espace où art, politique, migration et mémoire se rencontrent.

La Ruta del Pilón : le rythme de la cuisine ancestrale

Parmi ses projets phares, La Ruta del Pilón relie des expériences culinaires en Colombie, Nigeria et France.

Le point de départ ? Un objet simple, présent dans de nombreuses cuisines traditionnelles : le pilon.

Utilisé pour moudre les grains ou préparer les condiments, le pilon produit aussi rythmes, sons et gestuelles collectives. Dans de nombreuses cultures afro-diasporiques, pilonner est un acte social et musical, un rituel communautaire.

Dans La Ruta del Pilón, des femmes de différents territoires partagent techniques, histoires et performances, révélant comment cet outil traverse les continents et devient symbole de continuité culturelle.

Kos-Kos Festival et le livre sur le couscous

Ordener s’implique également dans le Kos-Kos Festival, événement européen qui célèbre le couscous et les traditions alimentaires du Maghreb. Ce festival relie migrant·e·s, cheffes et communautés locales autour de saveurs, récits et musiques.

À partir de cette expérience, elle a publié un livre sur le couscous, qui dépasse la simple recette. C’est une enquête culturelle, historique et sensorielle, montrant comment cet aliment a traversé les continents, s’est transformé en symbole d’hospitalité et d’identité, et reste central dans les familles et les festivités communautaires.

Ces projets illustrent sa conviction : la cuisine est mémoire, territoire et geste politique, et chaque aliment — couscous ou pilon — raconte des histoires de mobilité, de résistance et de créativité.

Femmes, territoires et transmission

Une grande partie de son travail consiste à reconnaître le rôle des femmes dans la préservation des savoirs culinaires traditionnels.

À travers l’Europe, l’Afrique et l’Amérique Latine, elle valorise :

la transmission orale des savoirs domestiques

l’usage des plantes et ingrédients traditionnels

le lien entre alimentation, territoire et identité

l’importance des cheffes populaires dans la mémoire culinaire

Une rencontre marquée par l’humanité

Rencontrer Marie-Josée Ordener, c’est comprendre que son engagement dépasse la recherche ou la curatelle.

Elle écoute, respecte et valorise les communautés avec lesquelles elle travaille, reconnaissant les histoires de résistance et de transmission culturelle présentes dans chaque cuisine traditionnelle.

La connaître a été un véritable plaisir : pour la richesse de ses idées, mais surtout pour sa façon humaine de dialoguer avec différents territoires et communautés.

À une époque où la nourriture devient souvent spectacle ou produit de luxe, son travail rappelle une évidence :

la cuisine reste l’un des lieux les plus puissants de rencontre entre cultures, mémoire et humanité. 🌍🍲


@charoth10

#ElCocineroLoko 

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