O PRAZER TAMBÉM É UMA FORMA DE RESISTÊNCIA


O livro Às Mangas!, de Françoise Vergès, dialoga profundamente com debates contemporâneos sobre colonialismo, memória e alimentação. 

Acaba de ser lançado pela Coleção Bandung o ensaio Às Mangas!, da pensadora decolonial Françoise Vergès. Partindo de uma imagem simples — mangas verdes com pimenta na saída da escola na Ilha da Reunião — a autora constrói uma reflexão potente sobre memória, colonialismo e culinária.

Entre lembranças sensoriais e análise política, Vergès revela como o gosto, os ingredientes e as cozinhas da diáspora foram historicamente atravessados por disputas de poder. Ao mesmo tempo em que denuncia a invisibilização das culinárias africanas, o ensaio celebra a sofisticação das cozinhas crioulas nascidas do encontro entre África, Ásia e Europa.

Um texto breve, mas profundamente provocador, que nos convida a pensar a culinária não apenas como técnica ou prazer — mas como território de memória, invenção e resistência.

O ensaio parte de uma cena cotidiana — comer manga verde com pimenta na saída da escola na Ilha da Reunião — para mostrar como o gosto é também um campo político. 

A partir dessa memória sensorial, Vergès questiona quem tem o direito de definir o que é culinária, o que é alimento e quem produz conhecimento sobre comida.

Um dos pontos centrais do texto é a crítica à maneira como a culinária africana foi historicamente desqualificada ou invisibilizada. Durante séculos, alimentos africanos foram enquadrados apenas como “comida de sobrevivência” ou “ajuda humanitária”, enquanto a noção de “alta cozinha” foi reservada à Europa. Nesse processo, o continente foi associado a imagens persistentes de fome, pobreza e carência, apagando a sofisticação de seus sistemas culinários.

Vergès também confronta o famoso modelo do triângulo culinário do antropólogo Claude Lévi-Strauss, que interpretava as transformações dos alimentos (cru, cozido, podre) como estruturas universais da cultura. Para ela, esse modelo ignora a história colonial e os sistemas alimentares criados nas diásporas. Ao invés de categorias abstratas, Vergès propõe olhar para histórias concretas de deslocamento, escravidão e mistura forçada de povos.

É nesse contexto que aparece a cozinha crioula das ilhas do Índico — especialmente da Ilha da Reunião — formada pelo encontro entre ingredientes e técnicas da África, da Índia, da China, de Madagascar e da Europa. Essa culinária não é uma “fusão” no sentido contemporâneo e comercial do termo. Para Vergès, trata-se de um processo histórico de invenção culinária, nascido de sobrevivência, adaptação e criatividade diante da violência colonial.

Pontes com o seu pensamento

Esse argumento dialoga muito com as reflexões que você venho desenvolvendo sobre culinária, território e ancestralidade.

Culinária como território político

Assim como Vergès fala do gosto como território de disputa, seu trabalho com comunidades quilombolas e com plantas alimentícias tradicionais mostra que a culinária é um espaço de memória e poder. O que se cozinha, quem cozinha e como se transmite o saber são formas de afirmar existência.

Crítica à “gastronomia” como dispositivo de poder

Você já critica a elitização da palavra “gastronomia”. Vergès faz algo semelhante ao denunciar como o sistema global classificou certas cozinhas como “gastronomia” e outras apenas como “alimentação”.

Cozinhas crioulas e quilombolas como invenção histórica

A cozinha da Ilha da Reunião que ela descreve lembra muito a formação das cozinhas afro-atlânticas no Brasil — especialmente na Bahia e no Recôncavo — onde técnicas africanas, ingredientes indígenas e influências europeias criaram sistemas culinários complexos, não simples misturas.

Sabores como resistência cultural

No seu trabalho com o projeto Sotoko e nas investigações sobre territórios quilombolas, você mostra que folhas, mariscos, dendê, quintais e roçados são mais que ingredientes: são arquivos vivos de história.

A leitura de Às Mangas! reforça uma convicção que atravessa meu trabalho: a culinária não é apenas técnica ou prazer, mas também território político. Assim como Françoise Vergès observa na cozinha crioula da Ilha da Reunião, as cozinhas da diáspora africana nasceram de encontros forçados, mas produziram sistemas culinários sofisticados, capazes de transformar violência histórica em invenção cultural.

Nos quilombos do Recôncavo, nos roçados de quintal, nas folhas e nos mariscos, encontramos essa mesma capacidade de reinvenção — uma culinária que não é fusão, mas memória viva em movimento.

🌿📚

Françoise Vergès nasceu em 1952, em Paris, França. Cientista política, historiadora, ativista e especialista em estudos pós-coloniais, Vergès cresceu na ilha da Reunião (França) e morou na Argélia, no México, na Inglaterra e nos Estados Unidos. 

Graduou-se em Ciências Políticas e Estudos Feministas na San Diego State University (1989). PhD em teoria política pela Berkeley University of California (1995), publicou sua tese Monsters and Revolutionaries: Colonial Family Romance and Métissage [Monstros e revolucionários: o romance e a mestiçagem da família colonial] pela Duke University Press (1999). 

Lecionou na Sussex University e na Goldsmiths College (Inglaterra). De 2009 a 2012, presidiu o comitê nacional francês de preservação da memória e da história da escravidão. 

Entre 2014 e 2018, foi titular do programa Global South(s) no Collège d’études mondiales da Fondation Maison des Sciences de l’Homme. Publicou diversos artigos sobre Frantz Fanon, Aimé Césaire, abolicionismo, psiquiatria colonial e pós-colonial, memória da escravidão, processos de creolização no oceano Índico e novas formas de colonização e racialização. Trabalha regularmente com artistas, tendo sido coautora dos documentários Aimé Césaire face aux révoltes du monde [Aimé Césaire em face das revoltas do mundo] e de Maryse Condé: une voix singulière [Maryse Condé: uma voz singular], ambos dirigidos por Jérôme-Cécile Auffret, e consultora curatorial da Documenta 11 (2002) e da Paris Triennale (2012). Organizou as exposições L’Esclave au Louvre: une humanité invisible [O escravo no Louvre: uma humanidade invisível], no Museu do Louvre, em 2013, além de Dix femmes puissantes [Dez mulheres poderosas], em 2013, e de Haiti, medo dos opressores, esperança dos oprimidos, em 2014, ambas para o Mémorial de l’abolition de l’esclavage, de Nantes.





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