MINAS NÃO É SÓ SABOR — É MEMÓRIA, É VÍNCULO, É CULTURA ALIMENTAR EM MOVIMENTO

Representando esse movimento, a Mercearia Matula leva não apenas ingredientes, mas histórias, modos de fazer e relações que estruturam a comida mineira como patrimônio.

Nascida da Matula – Plataforma Audiovisual da Cultura Alimentar Brasileira, ligada à Casa Frutilla, a Mercearia Matula se constrói como um espaço de circulação de saberes. Um território onde o alimento não é mercadoria isolada — é narrativa, é vínculo, é identidade.

E aqui entra uma questão central: o fator viciante da comida contemporânea.

Enquanto o sistema alimentar global investe em produtos ultraprocessados, desenhados para capturar atenção e padronizar o paladar, experiências como a da Matula operam no sentido contrário. Elas reativam o vínculo. Não há vício no sentido industrial — há memória. Não há estímulo artificial — há pertencimento.

Os produtos levados a Macau são expressão disso:

– O café do Teresa Café, vindo das Matas de Minas, carrega o tempo da terra, da colheita e da torra cuidadosa.

– Os doces de Zélia Doces Artesanais — goiabada, mangada e bananada — são permanência. Produzidos desde os anos 1950 na Fazenda Jatiboca, resistem à lógica da aceleração e da padronização.

– E até os cadernos e pins da Matula funcionam como dispositivos de comunicação: registram, fixam e expandem essa cultura.

Durante o evento, a cozinheira e pesquisadora Mariana Gontijo apresenta o preparo do tutu — prato que sintetiza a lógica da cozinha mineira: aproveitamento, técnica e afeto. Já a goiabada atravessa preparações contemporâneas, mostrando como tradição não é algo estático, mas em constante reinvenção.

O que a Mercearia Matula apresenta ao mundo não é apenas comida — é um contraponto.

Num cenário onde o “viciante” muitas vezes significa repetição, excesso e desconexão, a cultura alimentar mineira propõe outro caminho:

o da construção de vínculos duradouros entre pessoas, territórios e alimentos.

Participar desse encontro internacional não é só ocupar um espaço global.

É tensionar o próprio conceito de gastronomia — muitas vezes esvaziado — e recolocar a comida no seu lugar de origem:

como prática cultural, coletiva e profundamente humana.

@charoth10

#ElCocineroLoko 

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