FUMO DO MILHARAL SERTANEJO

Um detalhe do milho que rompe a expectativa, que desloca o olhar, que pede silêncio antes de julgamento.

Um fungo negro, carnoso, expandindo o milho — aquilo que no México é chamado de cuitlacoche ou huitlacoche, iguaria ancestral cultivada e celebrada há séculos. E, no entanto, a fotografia não vinha de Cidade do México, nem de Puebla. Vinha do Sertão de São Gabriel.

O que para muitos agricultores ainda é visto como “doença do milho”, no México é tratado como tesouro gastronômico. Trata-se do fungo Ustilago maydis, que transforma o grão em matéria escura, macia, profundamente aromática. Um sabor terroso, mineral, quase defumado — um umami que nasce do próprio corpo do milho.

A aparição desse fungo no Sertão suscita curiosidade. Primeiro, porque revela algo fundamental: o milho é um território vivo. Ele carrega em si não apenas grãos, mas ecossistemas. Onde há milho, há também fungos, microrganismos, interações invisíveis. A vida não é pura — é relação.

Depois, porque nos provoca culturalmente. Quantas vezes descartamos o que não reconhecemos? Quantas vezes classificamos como praga aquilo que poderia ser alimento? 

O cuitlacoche é um exemplo potente de como o olhar cultural define o valor de algo. No México, ele virou símbolo de sofisticação culinária; em outros lugares, ainda é motivo de descarte.

Sua presença no Sertão abre uma conversa maior:

*Sobre circulação de saberes,

*Sobre como os alimentos viajam e se transformam,

*Sobre a possibilidade de reeducar o paladar a partir do território.

Não se trata de importar uma moda. Trata-se de reconhecer que os biomas dialogam. Que o milho crioulo do Sertão pode, eventualmente, gerar essa mesma experiência sensorial que atravessa o México ancestral. E que talvez exista aí uma oportunidade de pesquisa, de experimentação, de escuta.

O fungo no milho nos lembra que a natureza não trabalha com categorias fixas. Aquilo que parece perda pode ser potência. Aquilo que surge como desvio pode se tornar caminho.

Talvez o Sertão esteja apenas nos convidando a olhar de novo.


@charoth10

#Elcocineroloko 

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