ENTRE A LEI E A FOME: QUEM É O CRIMINOSO?

Mas Arnold não era apenas um chef — era um homem atravessado pela história. Veterano da Segunda Guerra Mundial, conheceu de perto a violência e a perda antes de decidir que sua vida seria guiada por outro princípio: cuidar.

Desde os anos 1990, fundou uma organização e passou a alimentar diariamente quem vivia à margem. Muito antes de o tema ganhar visibilidade, ele já entendia que cozinhar não era apenas técnica — era compromisso com a vida.

Em 2014, já idoso, foi preso por continuar fazendo o que sempre fez. A cidade havia proibido esse tipo de ação. Ele sabia. E mesmo assim seguiu.

“Eu não posso deixar de fazer isso. Alimentar os famintos é mais importante.”

A história de Abbott dialoga diretamente com a atuação do padre Julio Lancellotti. Dois contextos distintos, atravessados pela mesma tensão: quando a solidariedade entra em conflito com a norma.

Nos Estados Unidos, Abbott foi criminalizado por alimentar. No Brasil, especialmente em São Paulo, padre Júlio enfrenta pressões, ataques e tentativas de silenciamento por fazer exatamente o mesmo — cuidar de quem foi empurrado para fora da cidade, da política e da dignidade.

O que une os dois não é apenas o gesto de alimentar, mas um posicionamento ético profundo: ambos colocam a vida acima da regra.

Há algo de revelador nisso. Não é a fome que escandaliza — é o gesto de combatê-la fora dos limites impostos. A miséria é administrada, mas não pode ser interrompida.

A lógica é perversa: pune-se quem cuida, enquanto se naturaliza quem sofre.

Diante disso, surge o dilema central do nosso tempo: até que ponto a legalidade pode se sobrepor à dignidade humana?

E mais — quando a lei falha em proteger a vida, desobedecê-la deixa de ser transgressão e passa a ser responsabilidade.

Dois territórios diferentes. A mesma pergunta incômoda:

quando a solidariedade se torna ilegal, o problema está em quem ajuda — ou em quem cria a regra?


@charoth10

#ElCocineroLoko 

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