ENGENHOS DE FARINHA DE SANTA CATARINA VIRAM PATRIMÔNIO CULTURAL DO BRASIL

A decisão foi aprovada pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural durante sua 112ª reunião, realizada no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.

O reconhecimento inscreve essa tradição no Livro de Registro dos Saberes, destacando não apenas a estrutura física dos engenhos, mas sobretudo o conhecimento transmitido entre gerações: plantar, transformar e cozinhar a mandioca.

Hoje, 88 engenhos ativos em 13 municípios catarinenses mantêm viva uma prática que atravessa séculos e conecta o Brasil a uma herança muito mais antiga. Pesquisas indicam que o conhecimento de transformar a mandioca em farinha existe há mais de dois mil anos, desenvolvido originalmente pelos povos Guarani e Tupi-Guarani, que ensinaram ao mundo como converter uma raiz tóxica em alimento nutritivo.

UMA CULTURA ALIMENTAR NASCIDA DO ENCONTRO DE POVOS

A tradição dos engenhos catarinenses é resultado da convergência de três matrizes culturais.

Os povos indígenas legaram o domínio da mandioca e das técnicas de processamento da raiz.

Imigrantes açorianos, que chegaram ao litoral de Santa Catarina no século XVIII, incorporaram tecnologias de moagem inspiradas nos moinhos europeus.

Já africanos escravizados trouxeram conhecimentos fundamentais de agricultura, carpintaria e construção de engrenagens de madeira, contribuindo decisivamente para o funcionamento dos engenhos.

Dessa fusão nasceu a farinha polvilhada, fina, branca e rica em polvilho, hoje reconhecida como uma das marcas da produção catarinense.

No final do século XVIII, essa atividade estruturava a economia regional: em 1797 havia 884 engenhos em funcionamento no estado.

MUITO MAIS QUE PRODUÇÃO: UM SISTEMA DE VIDA

O engenho não é apenas uma unidade produtiva. Ele é também um espaço de sociabilidade e transmissão de saberes.

Durante a farinhada, vizinhos e familiares se reúnem em mutirão para raspar, lavar, prensar, peneirar e torrar a mandioca. Cada etapa exige conhecimento específico. O forneiro — muitas vezes mulheres — domina a arte de torrar a farinha, controlando temperatura e ponto com base no olfato, na visão e no tato.

Enquanto o trabalho acontece, surgem cantigas tradicionais conhecidas como ratoeiras, brincadeiras como o Boi de Mamão e refeições coletivas que fortalecem os vínculos comunitários.

Para muitos mestres da tradição, o conhecimento é o verdadeiro patrimônio.

“O segredo da farinha é quem faz, não é o engenho. O engenho é só a máquina”, resumiu o agricultor Luiz Farias durante o processo de registro.

UMA TRADIÇÃO AMEAÇADA

Apesar do reconhecimento, os engenhos enfrentam desafios importantes.

A expansão imobiliária no litoral catarinense pressiona áreas de roça e territórios tradicionais. O turismo de massa também ameaça descaracterizar práticas que dependem de tempo, silêncio e trabalho comunitário.

Outro obstáculo são as normas sanitárias e ambientais pensadas para a produção industrial, que muitas vezes não se adaptam à realidade dos engenhos artesanais com fornos de barro e prensas de madeira centenárias.

Mesmo diante dessas pressões, comunidades seguem mantendo viva uma das bases da cultura alimentar brasileira.

Mais do que um produto, a farinha representa território, memória e identidade — um conhecimento coletivo que atravessa séculos e continua alimentando o Brasil.


@Charoth10

#ElCocineroLoko 

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