DO SABER AO SUSTENTO: QUANDO A CULINÁRIA VIRA FORÇA ECONÔMICA

O que acontece em Hanói com os rolinhos de arroz Thanh Trì não é apenas sobre comida — é sobre reconhecimento, memória e futuro. No Vietnã, a culinária tradicional não é tratada como algo periférico: ela é integrada a uma política cultural ativa, que reconhece ofícios, protege vilas artesanais e transforma saberes em ativos estratégicos para o desenvolvimento local.

Em bairros e aldeias como Thanh Trì, o fazer culinário é organizado como um sistema vivo. Famílias inteiras participam da produção, transmitindo técnicas de geração em geração — da escolha do arroz à moagem, da vaporização delicada das lâminas de massa ao gesto preciso de enrolar. Esse saber não fica restrito ao ambiente doméstico: ele é reconhecido, documentado, promovido e conectado ao turismo cultural. Visitantes não apenas consomem o prato, mas acompanham o processo, caminham pelas vilas, conhecem as pessoas e entendem a história por trás de cada gesto.

Leia matéria: Desbloqueando o potencial econômico do patrimônio cultural culinário.

Além disso, há um investimento consistente na valorização das chamadas “vilas de ofício”, onde culinária e artesanato caminham juntos. Utensílios, técnicas de preparo, formas de servir — tudo é parte de um ecossistema cultural que gera renda, identidade e pertencimento. A culinária, nesse contexto, deixa de ser vista como subsistência e passa a ser compreendida como patrimônio vivo e motor econômico.

No Brasil, essa chave ainda está em disputa — mas as possibilidades são imensas.

A culinária brasileira, especialmente aquela enraizada nos territórios quilombolas, indígenas e nas periferias urbanas, carrega um acervo de saberes que vai muito além do prato servido. Ela envolve técnicas, ritmos, instrumentos, modos de plantar, colher, processar e apresentar o alimento. Envolve também o artesanato: o balaio que transporta, a folha que embala, o pilão que transforma, a cerâmica que cozinha.

Quando olhamos com atenção, percebemos que cada elemento desses é parte de uma cadeia produtiva viva — e profundamente sofisticada.

Transformar essa herança em força econômica não significa mercantilizar a cultura de forma predatória, mas sim criar condições para que ela gere renda com dignidade, mantendo sua integridade. Isso passa por três movimentos fundamentais:

1. Reconhecimento como patrimônio cultural

Assim como em Hanói, reconhecer oficialmente práticas culinárias como patrimônio imaterial fortalece sua legitimidade. No Brasil, iniciativas do IPHAN já apontam caminhos, mas ainda há um vasto universo de saberes invisibilizados — especialmente aqueles liderados por mulheres negras, quilombolas e mestras da tradição.

2. Integração com o artesanato e os territórios

A comida não nasce isolada. Ela está ligada à terra, aos utensílios, aos gestos. Embalagens feitas com folhas, cuias, cerâmicas, tecidos e fibras naturais não são apenas sustentáveis — são narrativas materiais. Quando valorizadas, geram trabalho local e fortalecem economias circulares dentro das comunidades — assim como acontece nas vilas tradicionais vietnamitas, onde cada detalhe do fazer culinário é também um fazer artesanal.

3. Conexão com turismo e comunicação

Experiências culinárias autênticas têm um enorme potencial de atratividade. Em Hanói, isso se traduz em rotas gastronômicas, feiras tradicionais e circuitos que conectam visitantes diretamente aos territórios de produção. Mas isso exige mediação ética: contar as histórias certas, dar protagonismo a quem detém o saber, evitar a exotização. Quando bem estruturado, o turismo de base comunitária transforma visitantes em aprendizes — e não apenas consumidores.

No fundo, estamos falando de mudar o olhar.

De entender que o que muitas vezes foi chamado de “comida simples” é, na verdade, resultado de séculos de inteligência coletiva. Que o ato de socar um tempero no pilão, envolver um alimento na folha ou fermentar uma massa carrega ciência, história e espiritualidade.

Fortalecer a culinária como cultura é também fortalecer autonomia.

É criar caminhos para que comunidades não precisem abrir mão de seus modos de vida para sobreviver. É permitir que tradição e inovação caminhem juntas, sem ruptura.

E talvez o mais importante: é garantir que as próximas gerações não herdem apenas receitas — mas também o direito de continuar contando suas próprias histórias através da comida.


@charoth10

#ElCocineroLoko 

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