🌍 DO ACARAJÉ AOS ALIMENTOS ESQUECIDOS, CHEF DE SERRA LEOA RECONSTRÓI PONTES ENTRE ÁFRICA E BRASIL

A chef de Serra Leoa Fatmata Binta tem ganhado destaque internacional por um trabalho que conecta tradição, mobilidade e identidade alimentar entre África e América Latina.

Baseada na herança do povo fulani, ela constrói uma culinária que articula memória, território e práticas ancestrais em diálogo com desafios contemporâneos da alimentação.

Sua atuação foi reconhecida com o Basque Culinary World Prize, que destaca chefs cujo trabalho ultrapassa a cozinha e alcança dimensões sociais, culturais e ambientais.

Em sua recente visita ao Brasil, a chef Fatmata Binta aprofundou o diálogo entre práticas alimentares africanas e brasileiras, com especial atenção à Bahia. Durante sua passagem, destacou a presença de elementos que atravessaram o Atlântico com a diáspora e permanecem vivos em preparações tradicionais.

Entre eles, o acarajé surge como um dos principais símbolos dessa continuidade. Para a chef, trata-se de um exemplo concreto de como técnicas, ingredientes e modos de preparo foram preservados e ressignificados no contexto brasileiro, mantendo vínculos diretos com matrizes africanas.

A visita também reforçou seu interesse em estabelecer conexões com cozinheiras e comunidades locais, reconhecendo o papel central das mulheres na manutenção desses saberes. Nesse contexto, a cozinha aparece não apenas como espaço de produção de alimentos, mas como território de transmissão cultural e construção de identidade.

Ao circular pelo país, Binta também chamou atenção para a proximidade entre ingredientes considerados “tradicionais” no Brasil e aqueles utilizados em diferentes regiões da África, apontando para uma base alimentar compartilhada que ainda hoje sustenta práticas culinárias em ambos os lados do Atlântico.

A passagem pelo Brasil se insere em um movimento mais amplo de sua atuação internacional, voltado à valorização de sistemas alimentares locais e à construção de redes que conectam territórios historicamente ligados pela diáspora africana.

🌱 Culinária nômade e saberes ancestrais

O trabalho de Binta está ancorado na tradição nômade fulani, que orienta práticas alimentares baseadas na adaptação ao território. Entre os princípios centrais de sua cozinha estão o uso de ingredientes sazonais, o aproveitamento integral dos alimentos e técnicas de conservação como secagem ao sol e fermentação.

Essas práticas, segundo a chef, não são apenas técnicas culinárias, mas formas de conhecimento transmitidas ao longo de gerações e associadas à mobilidade histórica de seu povo.

🌍 Conexões entre África e Brasil

O debate proposto por sua cozinha ganha dimensão ao ser relacionado à diáspora africana nas Américas. No Brasil, o acarajé é frequentemente citado como um exemplo de continuidade e transformação de práticas alimentares de origem africana.

A reportagem destaca esse tipo de alimento como parte de uma rede mais ampla de circulação de saberes que atravessaram o Atlântico e foram reconfigurados em novos contextos sociais, especialmente na Bahia.

🔥 Alimentos “esquecidos” e revalorização de práticas locais

Outro eixo do trabalho de Binta é a valorização de ingredientes e técnicas considerados marginalizados pelo sistema alimentar global. Em sua prática, esses alimentos não são tratados como relíquias do passado, mas como elementos centrais para pensar o futuro da alimentação em contextos de crise climática e desigualdade.

A chef defende que a diversidade alimentar é também uma forma de resistência cultural e ecológica.

🍽️ Experiência coletiva e ruptura de formatos tradicionais

Entre suas iniciativas está o projeto Dine on a Mat, que propõe refeições coletivas servidas no chão, com as mãos, em formato comunitário. A proposta rompe com convenções do serviço de restaurante tradicional e busca resgatar práticas sociais de partilha alimentar.

🌍 Reconhecimento e impacto global

O reconhecimento internacional de seu trabalho tem ampliado o debate sobre o papel da culinária na construção de narrativas culturais e políticas. Ao colocar em evidência práticas alimentares africanas, Binta contribui para reposicionar o debate sobre gastronomia, soberania alimentar e memória coletiva em escala global.

🔥 Cozinhar como política do mundo

O reconhecimento internacional, como o prêmio Basque Culinary World Prize, não é apenas uma consagração individual. Ele revela uma mudança de eixo: a cozinha começa a ser reconhecida não só pelo que entrega no prato, mas pelo que reorganiza no mundo.

Fatmata também leva essa ideia ao seu projeto de refeições coletivas, o Dine on a Mat, onde o chão substitui a mesa e a partilha substitui a hierarquia. É uma recusa silenciosa do modelo ocidental de restaurante como palco de distinção social.

🌊 O Atlântico como memória viva

Quando o artigo aproxima o acarajé dessa conversa, ele não está fazendo apenas uma associação gastronômica. Está lembrando que há um fio que atravessa o Atlântico e ainda pulsa nas cozinhas da Bahia.

O acarajé não é apenas comida. É continuidade. É técnica africana recriada no Brasil. É uma forma de memória que não precisou de arquivo para sobreviver — sobreviveu no corpo, no azeite, na rua, na mão de quem vende e de quem come.



@charoth10

#ElCocineroLoko 

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