CULTURE OF TRANSITIONS

Ao revisitar sua obra, Gilroy reafirma uma ideia central: a cultura não nasce pura nem viaja intacta — ela se transforma no trânsito, nas travessias, nos encontros e nas fricções da história.

Essa reflexão dialoga profundamente com o projeto TASTES OF TRANSITION, que entende a cozinha como espaço vivo de circulação, reinvenção e construção de solidariedades. Assim como o “Atlântico Negro” de Gilroy descreve fluxos de pessoas, músicas e ideias que moldaram a modernidade, o projeto reconhece as culinárias afro-diaspóricas como resultado de deslocamentos forçados, resistências e recriações enraizadas nos territórios.

A entrevista, portanto, não é apenas um retorno a um clássico dos estudos culturais, mas uma chave de leitura para compreender como práticas culturais — da arte à cozinha — podem produzir novas formas de cooperação internacional, consciência planetária e futuro compartilhado. Entre memória e invenção, identidade e transformação, o pensamento de Gilroy ilumina o horizonte que TASTES OF TRANSITION busca cultivar: a cultura como movimento, como transição e como possibilidade de mundo.

Abaixo, trago uma tradução interpretativa em português, seguida de uma síntese explicativa para dar sentido ao conjunto.

🌊 Tradução 

A ideia de cultura de que precisávamos nunca foi algo que começa em algum lugar do mundo e chega aqui sem modificações. Ela se transforma no percurso.

Paul Gilroy visitou Oslo para uma palestra ligada à exposição I Want to Tell You Something, da artista Anawana Haloba. Seu livro The Black Atlantic tornou-se uma obra fundamental nos estudos culturais e na arte contemporânea.

Gilroy argumenta que o mundo moderno foi profundamente moldado pelo movimento de pessoas, músicas e ideias através do Atlântico — por meio da escravidão, da migração e do exílio. O Atlântico não é apenas um oceano, mas um espaço de circulação cultural e política.

Ele conta que o livro inicialmente foi rejeitado por uma editora, e que se sente feliz por ele ter tido vida — especialmente em diferentes línguas. Para ele, essa circulação é o mais precioso.

Nos anos 1980, artistas como Black Audio Film Collective, Sonia Boyce, Isaac Julien e Keith Piper estavam trabalhando com as mesmas questões: diáspora, escravidão, pertencimento. Havia um “fogo” político naquele momento, especialmente após os conflitos raciais de Brixton em 1981.

Gilroy colaborou diretamente com alguns desses artistas, escrevendo sobre suas obras e participando de projetos. Ele destaca, por exemplo, o trabalho A Ship Called Jesus (1991), de Keith Piper.

Sobre estética, ele reconhece que existe uma linguagem visual associada ao “Atlântico Negro”: o oceano, o naufrágio, o arquivo, o fragmento. Mas alerta que essa história precede seu livro. Ele menciona a pintura The Slave Ship (1840), de J. M. W. Turner, como um exemplo histórico fundamental.

Gilroy observa que o momento cultural que tornou possível a ideia do Atlântico Negro talvez já tenha passado. A internet e o digital criaram novos circuitos de relação — redes mais digitais que oceânicas. Talvez precisemos de outro nome para esse novo contexto.

Ele afirma que sempre defendeu que a raça é produzida pelo racismo — e não o contrário. Por isso, se incomoda quando o conceito de Atlântico Negro é usado para fixar identidades como se fossem essências.

Nos últimos anos, seu pensamento caminha em direção a um “humanismo planetário” — uma forma de pensar além da raça e das fronteiras nacionais, especialmente diante da crise ecológica e do avanço do fascismo.

Mas ele reafirma: é na cultura que as solidariedades se constroem. As culturas do Norte global estão esgotadas e precisam das forças revitalizadoras que vêm do Sul global — embora ele ressalte que o “Sul” não é apenas geográfico; ele pode estar logo ali, ao lado.

E conclui:

A cultura nunca foi algo que nasce em um lugar e chega intacta a outro. Ela se transforma na travessia.

🔎 O sentido profundo do texto

O que Gilroy está dizendo, em essência, é:

A modernidade não é europeia pura — ela é resultado da violência da escravidão, das travessias forçadas, das diásporas.

A cultura é movimento, mistura e transformação — não origem fixa.

Identidade não é essência — é processo.

A luta antirracista não deve cristalizar a raça como destino.

O mundo digital alterou profundamente as formas de circulação cultural.

Precisamos de novas formas de solidariedade para enfrentar crise climática e autoritarismos.


TASTES OF TRANSITION: COZINHA, DIÁSPORA E TERRITÓRIO COMO ESPAÇO DE TRANSFORMAÇÃO

Em um mundo atravessado por crises climáticas, deslocamentos humanos e disputas em torno da memória e da identidade, a cozinha emerge como um território político e sensível. Inspirado por reflexões como as de Paul Gilroy — para quem a cultura nunca viaja intacta, mas se transforma no trânsito — o Projeto Tastes of Transition afirma a cozinha como espaço de travessia, reinvenção e construção de futuros possíveis.

O projeto nasce como desdobramento do êxito de Cozinhas de l’Extraordinaire, realizado em 2025 no âmbito da Temporada França–Brasil. Naquele momento, consolidou-se uma reflexão comum sobre a cozinha como espaço de diplomacia cultural e cooperação internacional. Agora, Tastes of Transition aprofunda essa ideia ao constituir um espaço contínuo de troca, pesquisa e experimentação em torno dos patrimônios afrodescendentes, da biodiversidade e das tradições culinárias.

Durante sua programação na Bahia, o projeto articula demonstrações culinárias, encontros culturais, visitas de campo e momentos de imersão em colaboração com o Festival do Dendê, em Camaçari, e o Salvador Gastronomia 2026, em Salvador. A proposta valoriza ingredientes, técnicas ancestrais e sistemas alimentares enraizados nos territórios, ao mesmo tempo em que abre uma reflexão sobre o futuro da alimentação e sua contribuição para o desenvolvimento sustentável.

Ao reunir chefs da Colômbia, Nigéria, Togo, França, Camarões e Brasil, Tastes of Transition propõe não apenas um intercâmbio de receitas, mas uma cartografia viva das diásporas alimentares. A cozinha torna-se, assim, linguagem comum — não como herança estática, mas como prática transformada em trânsito, capaz de produzir solidariedades e imaginar novos pactos entre cultura, território e planeta.


https://kunstkritikk.com.com/transformed-in-transit/


@charoth10

#ElCocineroLoko 

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