💥 CULTURA NÃO É FOLCLORE, CULINÁRIA NÃO É GASTRONOMIA: NOMEAR É RECONHECER, TERRITORIALIZAR É JUSTIÇA

Seu texto nos convida a olhar com mais atenção para algo que muitas vezes passa despercebido: as palavras que usamos para falar de cultura também produzem efeitos políticos e históricos.

Ao problematizar o uso genérico da expressão “cultura popular”, a autora toca em um ponto sensível. Durante muito tempo, essa categoria foi utilizada de forma tão ampla que acabou por diluir sujeitos concretos — povos indígenas, comunidades quilombolas, tradições de matriz africana e outros grupos que sustentam, com seus territórios e suas memórias, parte fundamental da formação cultural brasileira.

Esse deslocamento conceitual que vem sendo ensaiado nas políticas culturais, especialmente no âmbito do Ministério da Cultura, ao adotar expressões como culturas afro-brasileiras, culturas indígenas, saberes e fazeres tradicionais ou culturas de povos e comunidades tradicionais, busca justamente recolocar os sujeitos históricos no centro da narrativa cultural.

Essa reflexão dialoga com a concepção de cultura defendida por Marilena Chauí, que entende cultura não como ornamento da sociedade, mas como campo de produção de sentidos, memória, valores e ação política. Cultura, nessa perspectiva, é direito e também território de disputa simbólica.

Dito isso, considero fundamental apoiar a provocação trazida pela autora, ao mesmo tempo em que acrescento algumas ressalvas importantes, especialmente quando essa discussão atravessa o campo da alimentação e da relação entre gastronomia, culinária e cultura alimentar.

Salve, minha gente.

Se liga e não caia em armadilhas conceituais. Salva e compartilha.

Nos últimos anos, o Ministério da Cultura vem tentando deslocar o uso genérico do termo “cultura popular”, adotando expressões mais precisas como culturas afro-brasileiras, culturas indígenas, culturas de matriz africana, saberes e fazeres tradicionais e expressões culturais de povos e comunidades tradicionais.

Esse movimento não é apenas semântico. Ele responde a uma crítica antiga: quando tudo é chamado simplesmente de popular, muitas vezes desaparecem os sujeitos históricos que produzem essas culturas — seus territórios, suas cosmologias, suas histórias de luta e resistência.

Nesse sentido, faz todo sentido apoiar a preocupação da autora. Nomear é reconhecer. Nomear é também restituir lugar e autoria.

Essa reflexão dialoga com a concepção de cultura defendida por Marilena Chauí, que entende cultura não como ornamento da sociedade, mas como campo de produção de sentidos, memória, valores e ação política. Cultura, nessa perspectiva, é direito e também território de disputa simbólica.

Quando práticas afro-indígenas são tratadas apenas como folclore, elas são deslocadas para um lugar de curiosidade cultural, como se fossem resquícios do passado. Mas essas práticas são, na verdade, formas vivas de conhecimento, tecnologias sociais e modos de interpretar o mundo.

Reconhecer isso é um avanço importante.

Mas é preciso também fazer algumas ressalvas.

A primeira é que o termo cultura popular não é necessariamente um erro. Em muitos momentos da história, ele foi justamente a forma de afirmar que existe uma cultura produzida fora das elites, nas ruas, nas roças, nos terreiros, nas cozinhas e nos mercados. Pensadores como Antonio Gramsci e Stuart Hall mostraram que a cultura popular pode ser também um campo de resistência e criação coletiva.

O problema não está na palavra em si, mas no uso genérico e despolitizado que muitas vezes se faz dela.

Existe ainda outra armadilha, menos percebida: a de transformar culturas vivas em categorias administrativas rígidas, onde a diversidade real das práticas se perde em classificações institucionais. O Estado precisa nomear para criar políticas públicas, mas a vida cultural sempre escapa aos formulários.

Essa mesma disputa aparece com muita força no campo da alimentação.

Hoje se tornou comum chamar de gastronomia aquilo que, durante séculos, foi simplesmente culinária, prática cotidiana transmitida de geração em geração nas casas, nos quintais, nos mercados e nas comunidades.

A palavra gastronomia ganhou prestígio histórico na Europa, especialmente na França, com autores como Jean Anthelme Brillat-Savarin. Com o tempo, ela passou a designar um campo especializado ligado à alta cozinha, à crítica culinária e aos restaurantes.

O problema surge quando saberes alimentares comunitários passam a ser reembalados como gastronomia, muitas vezes deslocando o protagonismo das cozinheiras, pescadores, agricultores e comunidades que sustentaram esses conhecimentos por gerações.

Nesse processo, aquilo que era vida cotidiana e memória coletiva pode acabar se transformando em produto cultural sofisticado, apropriado por circuitos de prestígio.

Por isso, muitos pesquisadores e cozinheiros ligados aos territórios preferem falar em culinária tradicional, saberes culinários ou culturas alimentares.

Essa distinção não é apenas terminológica. Ela aponta para uma questão fundamental: de onde vem o conhecimento e quem tem o direito de narrá-lo.

Ainda assim, é importante evitar simplificações. A gastronomia também pode ser espaço de investigação, pesquisa e valorização dos territórios quando realizada com responsabilidade e escuta.

O desafio, portanto, não é travar uma guerra de palavras, mas recolocar o território, as comunidades e os sujeitos no centro da narrativa cultural.

No fundo, a questão é simples e profunda ao mesmo tempo:

as culturas afro-indígenas, quilombolas e tradicionais não são apêndices da cultura brasileira.

Elas são fundadoras dela.

E suas cozinhas, seus rituais, suas plantas, seus modos de fazer e partilhar alimento não são curiosidades folclóricas.

São formas de conhecimento, memória e construção de mundo.

Reconhecer isso não é apenas uma questão de linguagem.

É uma questão de justiça cultural. ✊🏾🍃🍲


@charoth10

#ElCocineroLoko 

Comments

Popular posts from this blog

MARLI BRITO E O PULSAR BAIANO NO SÃO VICENTE

OFICINA SOTOKO EM GENEBRA: OBSERVAÇÕES ANALÍTICAS SOBRE CULTURA ALIMENTAR E DIVERSIDADE