CULINÁRIA, NOMEAÇÃO E PATRIARCADO


À primeira vista, essa imagem parece celebrar mulheres: diversos pratos famosos da culinária mundial carregam nomes femininos.

A Pizza Margherita homenageia a rainha Margherita of Savoy.

A Pavlova faz referência à bailarina Anna Pavlova.

O Peach Melba foi criado por Auguste Escoffier em homenagem à cantora Nellie Melba.

O Victoria Sponge remete à rainha Queen Victoria.

E o prato Tetrazzini leva o nome da soprano Luisa Tetrazzini.

Mas uma leitura crítica revela algo mais profundo: essa tradição também expõe a lógica patriarcal que marcou a construção da culinária moderna.

Historicamente, as mulheres estiveram no centro da vida alimentar — nas cozinhas domésticas, nos quintais, nos roçados, nas feiras e nas práticas cotidianas de preparo da comida. Foram elas que preservaram técnicas, transmitiram saberes e sustentaram culturas alimentares inteiras.

No entanto, quando a cozinha passou a ser institucionalizada como profissão, prestígio e arte — especialmente com a consolidação da culinária clássica europeia — o campo passou a ser dominado por homens: chefs, autores de livros, donos de restaurantes e formadores de opinião.

Nesse contexto, ocorre um paradoxo revelador:

os pratos recebem nomes de mulheres, mas a autoria permanece masculina.

A mulher aparece como:

– musa

– inspiração

– aristocrata homenageada

– símbolo de elegância

Enquanto o homem ocupa o lugar de criador, autor e autoridade culinária.

Isso revela uma dimensão simbólica do patriarcado. Não se trata apenas de quem cozinha, mas de quem tem o poder de registrar, nomear e narrar a história da culinária.

Dar nome a um prato é também um gesto de poder cultural.

É decidir quem será lembrado e quem permanecerá invisível.

Mas essa história não ficou congelada no tempo. Ao longo das últimas décadas, mulheres de diferentes territórios têm travado uma luta persistente contra o legado patriarcal que marcou tantas áreas da cultura — inclusive a culinária.

Essa luta busca romper com um sistema que, por muito tempo, transformou o trabalho feminino em invisibilidade e reduziu as mulheres a símbolos decorativos enquanto seus saberes sustentavam a vida cotidiana.

Hoje, cada vez mais cozinheiras, pesquisadoras, mestras da tradição e guardiãs da cultura alimentar estão reivindicando seu lugar como autoras, criadoras e portadoras de conhecimento.

Diante de imagens como essa, talvez a pergunta mais importante não seja apenas sobre as homenagens, mas sobre a estrutura que as produz:

por que tantas comidas levam nomes de mulheres, enquanto tão poucas mulheres aparecem como autoras reconhecidas na história da culinária?

Questionar isso é também enfrentar o grotesco legado do patriarcado, que por séculos tentou separar as mulheres do reconhecimento sobre aquilo que elas mesmas ajudaram a construir.

Reconhecer essa história é um passo fundamental para que a culinária do futuro seja mais justa, mais verdadeira e mais fiel às mãos que, de fato, alimentaram o mundo. 🌿🍲

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