CONFLUÊNCIAS NEGRAS E INDÍGENAS: A ALIMENTAÇÃO COMO TERRITÓRIO DE MEMÓRIA E RESISTÊNCIA NO BRASIL


No Brasil, é preciso dizer sem desvio: a fome não é apenas uma questão social — ela tem cor, tem território e tem história.

Acaba de ser lançado o livro Ajeum mi’u (Editora Elefante) que toca exatamente nesse ponto. Não como uma denúncia distante, mas como uma escuta atenta de realidades que seguem vivas — nas aldeias, nos quilombos, nos quintais, nas cozinhas que ainda sustentam o mundo.

Porque falar de alimentação é falar de terra.

É falar de quem planta, de quem colhe, de quem cozinha — e, sobretudo, de quem foi historicamente impedido de fazer tudo isso.

A população negra, após uma abolição sem reparação, foi lançada à margem. Os povos indígenas continuam, até hoje, enfrentando a perda sistemática de seus territórios. E quando o território se rompe, não é só o espaço físico que desaparece. O que se perde junto é o sistema alimentar inteiro: os saberes, os ciclos, os modos de fazer, os sentidos de partilha.

No lugar disso, o que avança é um modelo alimentar imposto — baseado em produtos ultraprocessados, acessíveis no preço, mas pobres em vida, em memória e em vínculo.

Mas Ajeum mi’u não se limita a apontar essa ruptura. Ele propõe algo mais profundo: a confluência.

Um encontro entre saberes negros e indígenas que não se confundem, mas se reconhecem. Que não se misturam de forma homogênea, mas se atravessam, se fortalecem e seguem criando possibilidades de existência.

De um lado, a ancestralidade africana que compreende o alimento como energia, como elo espiritual, como prática de cuidado e comunidade.

Do outro, os saberes indígenas, profundamente ligados ao território, ao tempo da natureza, ao equilíbrio entre o humano e o mundo.

Entre esses dois campos, existe um espaço fértil — um espaço de continuidade.

Mesmo diante da ausência de políticas públicas efetivas, da precariedade dos dados (especialmente sobre a realidade alimentar indígena) e da pressão constante de um sistema alimentar industrial, essas comunidades seguem vivas. Criando. Resistindo. Alimentando.

E talvez seja esse o maior convite do livro: deslocar o nosso olhar.

Sair da ideia de comida como mercadoria.

E voltar a entender o alimento como relação.

Porque cozinhar ainda pode ser um gesto de reconstrução.

Comer pode ser um ato político.

E preservar a memória pode ser, também, uma forma de garantir futuro.

A questão racial na raiz dos sistemas alimentares no Brasil: Entrevista com Rute Costa


@charoth10

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