COMER É CULTURA!

O caso envolvendo Marciele Albuquerque reacende um debate necessário sobre diversidade cultural, hábitos alimentares e racismo estrutural.

Tem circulado nas redes sociais um vídeo em que uma produtora de conteúdo critica Marciele Albuquerque — cunhã poranga do Boi Caprichoso e participante do Big Brother Brasil 2026 — por sua postura à mesa, apontando-a como “mau exemplo”.

Mas o debate em torno de Marciele revela muito mais do que uma discussão sobre “bons modos”. Ele expõe como práticas culturais são hierarquizadas a partir de padrões eurocêntricos, frequentemente naturalizados como universais.

Ao criticar o modo de comer de uma mulher indígena, o julgamento ultrapassa a esfera da etiqueta e se insere em uma longa história de classificação das culturas, na qual o diferente é associado ao atraso, ao erro ou à falta de educação. Trata-se de uma lógica já contestada no campo científico, mas que ainda estrutura percepções sociais no presente.

Comer não é apenas um ato biológico — é um gesto cultural, atravessado por território, memória e modos de vida. Questionar quem define o que é “correto” à mesa é, portanto, questionar relações de poder que historicamente marginalizam saberes e práticas de povos não europeus.

Nesse sentido, o caso não trata apenas de etiqueta, mas de uma disputa simbólica: entre a imposição de um padrão único de civilidade e o reconhecimento da diversidade cultural.

O Big Brother Brasil, enquanto formato televisivo, se baseia justamente na exposição do cotidiano. Seus participantes são observados em momentos íntimos, domésticos, muitas vezes descontextualizados — o que amplia o potencial de julgamento público.

No vídeo, Marciele aparece segurando uma coxa de frango com as mãos, reunindo porções de comida com os dedos e lambendo-os. A produtora de conteúdo classifica esse comportamento como inadequado, associando-o à falta de educação e utilizando a própria filha como exemplo de “boa conduta”.

Etiqueta

A crítica parte de uma noção de etiqueta que não é neutra, mas socialmente situada. Trata-se de um conjunto de códigos historicamente construídos e vinculados a grupos de maior poder econômico.

Ao longo do tempo, esses códigos deixaram de ser exclusivos das elites e foram apropriados por setores das classes médias como forma de distinção e ascensão simbólica, reforçando a ideia de que determinados comportamentos indicariam refinamento e superioridade cultural.

Historicamente, os chamados “bons modos” à mesa foram sistematizados na corte francesa, especialmente durante o reinado de Luís XIV, funcionando como instrumentos de organização social e distinção.

Mais do que regras de convivência, esses códigos delimitavam pertencimento: indicavam quem estava dentro — e quem permanecia fora — dos espaços de poder.

Após a Revolução Francesa, tais práticas foram incorporadas pela burguesia ascendente, consolidando-se como marcadores de classe e também como símbolos de higiene e civilidade.

Comer é cultural

Todo ato humano é mediado pela cultura, inclusive aqueles ligados às necessidades biológicas: comer, dormir, nascer, morrer.

Na região Norte do Brasil, por exemplo, é comum comer com as mãos, especialmente no consumo de peixe, que exige atenção às espinhas. No Baixo Amazonas, é prática preparar pequenas porções de farofa de peixe — conhecidas como “capitão” — para garantir a segurança alimentar das crianças.

Em diversas partes do mundo, o uso das mãos à mesa não apenas é comum, como também segue regras específicas e significados próprios. Em contextos da Ásia, do Oriente Médio e de diferentes regiões da África, o comer com as mãos convive com o uso de utensílios, evidenciando que não existe uma única forma “correta” de se alimentar, mas múltiplas formas culturalmente construídas.

O uso de talheres, nas Américas, está diretamente ligado aos processos coloniais, que difundiram padrões europeus como referência de civilização.

“Primitivo”

Chama atenção no vídeo o uso do termo “primitivo” para descrever o comportamento de Marciele. A produtora sugere que, se tivesse consciência de si, ela evitaria transmitir tal imagem.

O termo, por si só, já carrega uma carga histórica de inferiorização, ao associar práticas culturais distintas à ideia de atraso ou incivilidade.

Quando direcionado a uma mulher indígena, seu peso é ainda maior.

Selvagens

Durante séculos, povos indígenas, africanos e aborígenes foram classificados como pertencentes aos estágios iniciais da evolução humana — uma construção teórica elaborada no contexto europeu.

Essa perspectiva foi influenciada por interpretações sociais do pensamento de Charles Darwin e consolidada no chamado evolucionismo cultural ou darwinismo social, difundido entre os séculos XIX e XX.

Segundo essa visão, as culturas humanas seriam organizadas em uma escala evolutiva: da “selvageria” à “civilização”. Esse modelo serviu de base para justificar processos de colonização, catequização e dominação.

Além disso, sustentou teorias raciais que associavam diferenças culturais a diferenças biológicas, alimentando projetos eugênicos e supremacistas.

Raça x cultura

Essas teorias começaram a ser contestadas ainda no final do século XIX, especialmente pelos trabalhos de Franz Boas, considerado o fundador da antropologia moderna.

Boas demonstrou que não existe uma única cultura humana, mas múltiplas culturas, cada uma com sua lógica própria. Defendeu que práticas culturais devem ser compreendidas em seus próprios contextos, e não hierarquizadas a partir de critérios externos.

Também rompeu com a ideia de que características biológicas determinam cultura, separando definitivamente os conceitos de raça e cultura no campo científico.

Apesar disso, resquícios dessas teorias persistem no imaginário social, sustentando julgamentos que associam diferença à inferioridade.

Racismo

Embora o evolucionismo cultural tenha sido superado há mais de um século, seus efeitos permanecem. Eles se manifestam, ainda hoje, em formas sutis e explícitas de racismo, especialmente na forma como corpos indígenas e negros são percebidos e julgados.

No contexto contemporâneo, isso se evidencia na vigilância constante sobre esses corpos em espaços públicos e midiáticos. Em programas de grande audiência, como o Big Brother Brasil, comportamentos cotidianos são frequentemente interpretados a partir de referências brancas e eurocêntricas.

O que está em jogo não é apenas o comportamento em si, mas quem o realiza — e a partir de quais parâmetros ele é julgado.

O termo “primitivo”, portanto, não é apenas inadequado: é expressão de uma lógica histórica que insiste em hierarquizar culturas e deslegitimar modos de vida.

No caso de Marciele Albuquerque, mulher indígena do povo Munduruku, seu uso não é apenas equivocado — é racista.

Texto completo 

*Texto final, com intervenções nossas no texto


@Charoth10

#ElCocineroLoko 

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