CASA SEM RETRATO: A COZINHA BRASILEIRA E O IMAGINÁRIO INTERROMPIDO
No imaginário europeu, a cozinha da casa tem rosto, nome e continuidade. A “nonna” italiana sintetiza afeto, território e memória — uma figura que atravessa gerações e organiza a ideia de tradição. Ainda que essa imagem também seja, em parte, uma construção idealizada, ela cumpre um papel simbólico potente: dar forma a uma herança.
No Brasil, essa imagem nunca se consolidou da mesma forma.
Não por ausência de cultura, mas por uma história marcada por deslocamentos, violências e rupturas profundas. Aqui, a cozinha doméstica não se estruturou em torno da permanência, mas da instabilidade. Faltou terra. Faltou casa. Faltou tempo para que a memória se assentasse sem interrupção.
E, sobretudo, faltou reconhecimento.
É nesse ponto que Um pé na cozinha, da historiadora Taís de Sant’Anna Machado, se torna uma referência fundamental. Fruto de uma pesquisa histórica rigorosa, a obra investiga o papel das mulheres negras na formação da alimentação no Brasil, evidenciando como a cozinha doméstica sempre foi um espaço central para compreender as relações de poder no país. Ao reunir documentos, relatos e análises, a autora demonstra que o cotidiano alimentar das classes médias e altas foi historicamente sustentado pelo trabalho dessas mulheres — primeiro em regime de escravidão, e depois em condições marcadas pela precarização, pela violência e pela desvalorização sistemática de seus saberes.
A cozinha, nesse sentido, não é apenas lugar de afeto.
É também lugar de hierarquia.
É a cozinha dos fundos.
É o prato que chega pronto à mesa sem que se saiba quem fez.
É a mulher que cozinha em uma casa e volta tarde para a sua, onde muitas vezes falta o mesmo alimento que ela preparou para outros.
Esse apagamento não é só histórico. Ele é construído.
Porque aquilo que vira símbolo, memória, estética — aquilo que pode ser chamado de “tradição” — não é neutro. É escolhido. É enquadrado. É legitimado. E, no Brasil, esse processo teve lado.
Enquanto a cozinha europeia pôde ser romantizada — registrada em livros, filmes, fotografias — a cozinha brasileira, profundamente marcada pelo trabalho de mulheres negras e indígenas, foi mantida fora do enquadramento. Presente no fazer, ausente na narrativa.
Uma cozinha sem retrato.
É por isso que talvez não caiba ao Brasil procurar uma “nonna”.
Porque aqui, a cozinha da casa nunca foi uma só.
Ela é muitas. E, mais do que isso, ela é atravessada.
Ela está no fogão de lenha do interior, mas também no fogão improvisado da periferia.
Está no terreiro, onde cozinhar é ritual, mas também no emprego doméstico, onde cozinhar é sobrevivência.
Está no cuidado, mas também na exaustão.
E isso não é detalhe — é estrutura.
A ausência de um símbolo unificador da cozinha brasileira não revela um vazio. Revela uma escolha histórica: a de não transformar em referência aqueles que sempre sustentaram essa cozinha.
A COZINHA COMO TERREIRO: UM IMAGINÁRIO POSSÍVEL
Se existe, no Brasil, uma imagem potente, estruturada e viva de cozinha como território de afeto, memória e continuidade, talvez ela não venha da casa burguesa — mas do terreiro.
No Candomblé, a cozinha não é um espaço secundário. Ela é central. É lugar de fundamento, de transmissão de saber, de organização comunitária e de conexão espiritual. Ali, cozinhar não é apenas preparar alimento — é estabelecer relações com o sagrado, com o tempo, com a ancestralidade.
Diferente da lógica doméstica atravessada pelo apagamento, no terreiro há nome, há hierarquia reconhecida, há autoria. As ialorixás, ekedis, iaôs e tantas outras mulheres que ocupam esse espaço não estão invisíveis — são referências vivas, guardiãs de técnicas, ritmos e sentidos que atravessam gerações.
Existe método. Existe respeito. Existe continuidade.
A cozinha do candomblé opera, portanto, como um contraponto direto à estética deslocada da cozinha brasileira no imaginário dominante. Enquanto fora dali os saberes foram historicamente apropriados e silenciados, no terreiro eles são preservados, nomeados e ritualizados.
É uma cozinha com rosto.
Com história.
Com fundamento.
E talvez seja justamente aí que encontramos uma das imagens mais próximas de uma “cozinha simbólica brasileira” — não aquela que foi legitimada pelas elites ou convertida em produto cultural, mas aquela que resistiu à violência histórica mantendo vivos seus códigos, suas práticas e sua dignidade.
Ainda assim, ela não desaparece.
Ela insiste.
Insiste no gesto repetido, na receita que não foi escrita, na memória que circula pela oralidade. Insiste nas mulheres negras e indígenas que seguem guardando técnicas, ingredientes e modos de fazer — mesmo quando seus nomes não são lembrados.
Mas é uma insistência sem monumentalização.
E talvez seja exatamente aí que reside o desafio — e a possibilidade.
Não se trata de encontrar uma imagem equivalente à “nonna”, mas de deslocar o próprio olhar: reconhecer que a cozinha brasileira não é uma tradição interrompida, mas uma tradição impedida de se afirmar como símbolo.
Quando essas histórias começam a ser nomeadas, quando essas mulheres deixam de ser apenas força de trabalho e passam a ser reconhecidas como autoras, algo se move.
A estética também muda.
E a cozinha brasileira, então, deixa de ser apenas o lugar do que sustenta — e passa a ser o lugar de onde se fala.
Pra fechar esse caminho, talvez o ponto não seja apenas denunciar o apagamento — mas também reposicionar a cozinha como território de disputa.
Porque, sim, a cozinha foi historicamente atravessada pelo patriarcado: associada ao trabalho doméstico não reconhecido, à obrigação feminina, à sobrecarga invisível. Mas, no contexto brasileiro, ela também é outra coisa. Ela é lugar de saber, de articulação, de transmissão de memória e, sobretudo, de autonomia possível.
Reaver esse espaço não significa romantizar a opressão — significa deslocar o sentido.
Significa entender que, nas mãos de tantas mulheres negras e indígenas, a cozinha nunca foi só imposição. Foi também estratégia. Foi sustento. Foi linguagem. Foi, muitas vezes, o único território onde era possível exercer algum tipo de controle sobre a própria vida.
Talvez seja aí que mora a virada.
A cozinha da casa brasileira, mesmo marcada por violência e desigualdade, também carrega uma potência insurgente. Quando essas mulheres se reconhecem como autoras — e não apenas como força de trabalho —, quando seus saberes deixam de ser apropriados e passam a ser nomeados, quando o fazer cotidiano se afirma como conhecimento, algo se transforma.
A cozinha deixa de ser apenas lugar de serviço.
E passa a ser lugar de poder.
@charoth10
#ElCocineroLoko
Já reparou como as imagens que a gente associa à “cozinha afetiva” quase nunca se parecem com a nossa própria realidade? Como se o afeto tivesse um cenário importado — uma estética, um rosto, uma história — que não nasce daqui, mas que ainda assim tentamos reconhecer como nosso?
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