👉 ATÉ QUE PONTO A GENTE ESCOLHE… OU APENAS RECONHECE COMO “NOSSO” AQUILO QUE JÁ FOI PREPARADO PRA GENTE GOSTAR?
A Washburn-Crosby Company, uma empresa de moagem de farinha que mais tarde se tornaria a General Mills, Inc., logo percebeu que essas novas donas de casa precisavam de uma mentora para auxiliá-las tanto com os novos eletrodomésticos quanto com seu novo papel.
Nos anos 1950, a General Mills lançou sua mistura pronta de bolo da Betty Crocker com uma promessa sedutora: eliminar o trabalho. Bastava adicionar água, levar ao forno e pronto — o bolo perfeito, sem esforço. Era a materialização de um ideal moderno de eficiência.
Mas fracassou.
As mulheres que testavam o produto não se reconheciam naquele gesto. Havia algo de estranho, quase uma ausência: o bolo saía pronto demais. Faltava vínculo, faltava participação, faltava a sensação de ter feito. Não era só sobre cozinhar — era sobre identidade, cuidado, pertencimento.
A solução encontrada foi simples e, ao mesmo tempo, reveladora: retirar o ovo em pó da mistura e exigir que o ovo fresco fosse adicionado em casa.
Quebrar o ovo devolveu o sentido.
Não porque tornasse o processo mais eficiente — mas porque restaurava um gesto simbólico. A partir dali, o bolo voltava a ser “seu”. Não por ter sido realmente feito do zero, mas porque continha um mínimo de intervenção capaz de produzir identificação.
Na década de 1920, as mulheres americanas enfrentavam um obstáculo completamente novo: a cozinha elétrica. Na América do pós-guerra , a responsabilidade pelas tarefas domésticas estava mudando rapidamente, passando de um trabalho compartilhado — entre familiares ou empregados, dependendo da classe social — para uma tarefa individual: a dona de casa. A Washburn-Crosby Company, uma empresa de moagem de farinha que mais tarde se tornaria a General Mills, Inc., logo percebeu que essas novas donas de casa precisavam de uma mentora para auxiliá-las tanto com os novos eletrodomésticos quanto com seu novo papel.
Esse episódio, frequentemente associado às estratégias de persuasão inspiradas por Edward Bernays, revela um deslocamento profundo: o consumo deixa de ser apenas funcional e passa a ser afetivo e simbólico. Não basta entregar algo pronto. É preciso que o sujeito se reconheça naquilo que consome.
É aqui que a leitura de Pierre Bourdieu ajuda a iluminar o fenômeno. Ao afirmar que “o gosto classifica, e classifica o classificador”, ele aponta que aquilo que chamamos de escolha carrega marcas sociais profundas.
No bolo, o “gosto” pelo fazer foi reconstruído.
Na política, o “gosto” por certos candidatos é moldado.
Na vida, a gente aprende a reconhecer como natural aquilo que foi socialmente preparado.
A escolha individual existe — mas ela acontece dentro de um campo já estruturado.
Décadas depois, essa lógica não só permanece — ela se sofistica.
Na política, especialmente no Brasil contemporâneo, vemos um mecanismo semelhante operando através das pesquisas de intenção de voto, conduzidas por institutos como Datafolha, Ipec e Paraná Pesquisas.
🧠 Onde entra Edward Bernays
A lógica é a mesma que aparece em The Century of the Self:
Não se impõe diretamente
Se molda o desejo
Se constrói o que parece “natural”
👉 A opinião pública não é só medida
👉 Ela é também organizada, conduzida e enquadrada
Em teoria, elas medem o cenário. Mas, na prática, ao serem amplamente divulgadas, comentadas e repetidas, passam a influenciar aquilo que deveriam apenas registrar.
Criam-se tendências. Produz-se viabilidade. Define-se quem “tem chance” e quem não tem. E, aos poucos, o campo do possível vai sendo estreitado até caber num espectro confortável — um verdadeiro paladar político normalizado.
🍰 O paralelo com o bolo
No caso da General Mills, o erro foi tirar totalmente o gesto.
Na política, o erro seria apresentar algo totalmente fora do que o eleitor reconhece.
Então o sistema faz o quê?
👉 Ajusta a “receita do candidato”:
um pouco de novidade (pra parecer diferente)
um pouco de familiaridade (pra não assustar)
gestos simbólicos (empatia, origem humilde, família, etc.)
Assim como quebrar o ovo fazia a pessoa se sentir parte do processo…
👉 o eleitor precisa sentir que:
está escolhendo
está participando
está decidindo
Mesmo dentro de um cardápio já pré-formatado
Assim como na mistura de bolo, não se elimina a escolha. Ao contrário: ela é preservada — mas dentro de limites cuidadosamente preparados.
O eleitor ainda “quebra o ovo”.
Ele opina, decide, se posiciona. Mas o cardápio já foi previamente organizado para que certas opções pareçam naturais, razoáveis, aceitáveis — enquanto outras soem excessivas, inviáveis ou simplesmente invisíveis.
Não se trata de negar a existência de escolhas reais, nem de reduzir tudo a manipulação. Trata-se de perceber que, entre o desejo e a decisão, existe um trabalho silencioso de formatação.
E é aí que a pergunta retorna, agora mais densa:
👉 quando escolhemos, estamos de fato decidindo — ou apenas reconhecendo como familiar aquilo que, aos poucos, fomos ensinados a desejar?
https://www.wideopencountry.com/who-is-betty-crocker/
A análise do gosto por Pierre Bourdieu (1930-2002) é um pilar da sociologia contemporânea, centralizada na ideia de que as preferências individuais não são inatas ou puramente subjetivas, mas sim construções sociais profundamente enraizadas na estrutura de classes e na busca por distinção social. Em sua obra monumental, "A Distinção: Crítica Social do Julgamento" (1979), Bourdieu demonstra como o "bom gosto" é utilizado pelas classes dominantes para legitimar privilégios e segregar grupos sociais.
@charoth10
#ElCocineroLoko

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