AS MESTRAS DOS SABERES E A DEFESA DA CULTURA ALIMENTAR NOS TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS

No entanto, esse papel vem sendo cada vez mais fragilizado. A presença crescente de produtos industrializados e de discursos sobre “alimentos saudáveis” — muitas vezes desconectados da realidade local —, junto ao descrédito silencioso em relação às Mestras por serem mais velhas, reduz a capacidade dessas mulheres de orientar a alimentação da comunidade a partir dos saberes do território. Desconsiderar essa experiência acumulada é perder mais do que receitas: é perder conhecimento sobre a terra, as plantas, os ciclos da natureza e os vínculos comunitários.

A leitura do documento Alimentação Escolar Quilombola: orientações a partir das experiências e narrativas dos quilombos e das escolas⁠, elaborado pelo grupo de pesquisa e extensão CulinAfro UFRJ, com apoio do Instituto Ibirapitanga, é profundamente enriquecedora. 

O material sistematiza experiências e narrativas de comunidades quilombolas e escolas, oferecendo orientações práticas para gestores, nutricionistas e educadores. Ele reforça que a alimentação escolar quilombola não pode ser separada da cultura, do território e da memória coletiva.

O projeto CulinAfro, liderado pela professora Rute Costa, desenvolve ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) com foco na valorização da cozinha afroancestral e das práticas alimentares ligadas aos territórios quilombolas. No Quilombo da Machadinha (RJ), o projeto promove o conceito de “tempero de quilombo na escola”, aproximando a merenda escolar dos alimentos produzidos localmente e valorizando ingredientes tradicionais como mandioca, milho, coco e umbu. Esse trabalho é integrado ao Programa Interdisciplinar de Promoção à Saúde (PIPS) da UFRJ e reforça o respeito à identidade, à ancestralidade e à sociobiodiversidade das comunidades.

O encontro reuniu representantes de comunidades, agricultores familiares, cozinheiras escolares, educadores e gestores públicos, criando um espaço de diálogo para valorizar a produção local, a agricultura familiar e a memória alimentar das comunidades. Entre os participantes esteve o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), reforçando a luta por soberania alimentar, produção camponesa e garantia de comida saudável e culturalmente adequada nas escolas.

Para fortalecer a alimentação escolar quilombola, algumas estratégias se mostram essenciais:

Valorizar a participação das Mestras e cozinheiras na construção dos cardápios escolares, reconhecendo seus conhecimentos como parte do processo educativo.

Fortalecer a agricultura familiar, destinando pelo menos 30% dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) para a compra de alimentos produzidos localmente.

Integrar a educação alimentar ao cotidiano escolar, conectando sala de aula, quintal, roça, plantas e ciclos da natureza.

Compreender que não existe alimentação saudável sem soberania alimentar, incluindo acesso à terra, à água e condições de produção adequadas.

Iniciativas como o 1º Encontro na Bahia mostram que a alimentação escolar vai muito além da nutrição: ela é território, cultura, memória e futuro alimentar das comunidades, e uma ferramenta estratégica para proteger a cultura alimentar, fortalecer identidades coletivas e ampliar a autonomia quilombola.

📎 Acesse o documento completo:

Ler o documento “Alimentação Escolar Quilombola”⁠

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