A FOME RECUA — MAS A DESIGUALDADE AINDA ESCOLHE QUEM COME

Os dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) mostram uma queda consistente da insegurança alimentar grave, indicando que menos brasileiros estão vivendo a realidade mais extrema da falta de comida.

Nos domicílios chefiados por mulheres, a taxa caiu para 3,6%. Entre pessoas negras, ficou em 4,1%. Já nos lares liderados por mulheres negras — grupo que historicamente concentra as maiores vulnerabilidades sociais — o índice chegou a 4,5%, o menor da série histórica.

Os números são importantes. Mas não são neutros — são resultado de escolhas políticas.

A retomada e ampliação do Bolsa Família, com aumento de valores e foco em crianças e mulheres, teve impacto direto no acesso à alimentação. A valorização do salário mínimo, a redução do desemprego e o fortalecimento de redes de proteção como o Sistema Único de Assistência Social ajudaram a recompor uma base mínima de dignidade para milhões de famílias.

Além disso, políticas voltadas à segurança alimentar — como cozinhas comunitárias, distribuição de alimentos e incentivo à agricultura familiar — vêm reconstruindo, aos poucos, o que havia sido desmontado nos últimos anos.

Mas é preciso dizer o óbvio: a fome diminuiu, mas não desapareceu. E, sobretudo, continua tendo cor, gênero e território.

Os dados revelam que, mesmo no melhor cenário já registrado, mulheres negras ainda enfrentam os maiores índices de insegurança alimentar. Isso não é coincidência — é estrutura. É o reflexo de um país que ainda distribui de forma desigual o acesso à renda, à terra, ao trabalho e, consequentemente, ao alimento.

Outro ponto fundamental: sair da fome extrema não significa viver com dignidade alimentar. Milhões de brasileiros ainda convivem com a insegurança alimentar leve e moderada — quando a comida falta antes do fim do mês ou quando o que chega ao prato é insuficiente em qualidade e diversidade.

Nesse contexto, o debate precisa avançar. Não basta garantir comida — é preciso discutir que comida, de onde ela vem e quem controla esse sistema.

A segurança alimentar é um passo. Mas o horizonte precisa ser a soberania alimentar: o direito dos povos de decidir sobre sua própria alimentação, valorizando culturas, territórios e saberes tradicionais.

📉 O que explica a queda da fome?

Alguns fatores ajudam a entender essa redução histórica:

Retomada e ampliação do Bolsa Família

O programa voltou com valores maiores, adicionais para crianças e mulheres, e maior cobertura. Isso impacta diretamente o acesso à alimentação.

Valorização do salário mínimo

O aumento real do salário melhora o poder de compra, especialmente para famílias mais vulneráveis.

Queda do desemprego

A recuperação do mercado de trabalho contribui para maior estabilidade na renda familiar.

Fortalecimento de políticas de assistência social

Como o Sistema Único de Assistência Social, que atua na ponta, especialmente em territórios mais vulneráveis.

Programas de acesso à alimentação

Como cozinhas comunitárias, distribuição de cestas e apoio à agricultura familiar.

⚠️ Mas ainda há desafios importantes

Apesar da melhora, os números mostram que a desigualdade continua estruturando quem passa fome:

Lares chefiados por mulheres negras (4,5%) ainda têm índices maiores que a média geral.

A fome segue mais presente em regiões como Norte e Nordeste.

A insegurança alimentar leve e moderada (quando a comida é insuficiente ou de baixa qualidade) ainda atinge milhões.

Ou seja: menos gente está passando fome extrema, mas ainda existe uma fragilidade alimentar significativa.

🌱 Um ponto importante (e pouco falado)

A redução da fome não é só sobre renda — é também sobre modelo alimentar.

Existe um debate forte hoje sobre como políticas públicas podem:

fortalecer sistemas alimentares locais

valorizar saberes tradicionais (como você mesmo vem trabalhando)

reduzir a dependência de alimentos ultraprocessados

Isso conecta diretamente com a discussão sobre soberania alimentar, não só segurança alimentar.

📊 Brasil no cenário global

O país já teve um marco importante quando saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura em 2014 — mas voltou anos depois.

Agora, com essa nova queda nos índices, há uma expectativa de que o Brasil possa novamente sair desse mapa nos próximos relatórios, se a tendência continuar.

O Brasil já mostrou que é possível sair do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Os dados atuais indicam que esse caminho pode ser retomado.

Mas a pergunta que fica é outra:

vamos apenas reduzir a fome — ou enfrentar, de fato, as estruturas que a produzem?

Porque enquanto houver desigualdade, a fome nunca será só um acidente. 


@charoth10

#ElCocineroLoko 

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