369 ESPÉCIES ALIMENTARES NEGLIGENCIADAS REVELAM A DIVERSIDADE OCULTA DA CULTURA ALIMENTAR BRASILEIRA

Estudo publicado na revista científica Scientific Reports identificou 369 espécies alimentares negligenciadas no Brasil, revelando um amplo patrimônio biológico e cultural ainda pouco explorado pela ciência, pelas políticas públicas e pelo próprio sistema alimentar. A pesquisa contou com a participação do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, centro de pesquisa sediado no município de Tefé, no interior do Amazonas.


O levantamento reuniu uma diversidade de plantas, animais, fungos, insetos e algas que fazem parte de sistemas alimentares tradicionais espalhados pelo país. Muitos desses alimentos são conhecidos e utilizados há gerações por comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e camponesas, mas permanecem pouco investigados pela ciência e quase ausentes das políticas de nutrição e abastecimento.

Enquanto isso, a alimentação cotidiana da maior parte da população brasileira permanece concentrada em poucas espécies — como arroz, feijão, trigo, milho, frango e carne bovina — refletindo um processo global de redução da diversidade alimentar.

O inventário elaborado pelos pesquisadores inclui ingredientes presentes em diferentes territórios brasileiros, como baru, camu-camu, cogumelos silvestres e insetos comestíveis como a tanajura, além de peixes de água doce e carnes de caça consumidas em diversas regiões do país.

Para organizar e priorizar essas espécies em futuros estudos nutricionais, a equipe utilizou ferramentas de inteligência artificial explicável, tecnologia que permite compreender os critérios utilizados pelos modelos de análise. O resultado revelou um padrão curioso: espécies que aparecem em maior número de receitas e que estão distribuídas em diferentes regiões do país têm mais chances de serem estudadas.

Esse critério evidencia um viés na produção do conhecimento científico. Alimentos amplamente difundidos na culinária regional tendem a atrair mais atenção acadêmica, enquanto espécies restritas a determinados territórios — muitas vezes profundamente ligadas à cultura alimentar local — permanecem invisíveis para a pesquisa.

O estudo também aponta grandes lacunas de conhecimento. As plantas representam cerca de 29,5% das espécies catalogadas e concentram a maior parte das informações nutricionais disponíveis. Em contraste, outros grupos seguem praticamente inexplorados. Nenhuma das espécies de algas ou insetos listadas possui dados nutricionais publicados. Entre os cogumelos silvestres, apenas 12,6% contam com informações científicas.

Já os animais silvestres, que representam cerca de 24% das espécies identificadas, também carecem de estudos mais detalhados, apesar de desempenharem papel relevante em sistemas alimentares tradicionais.

A maior concentração dessas espécies negligenciadas está na região Norte do país, reflexo direto da biodiversidade da Amazônia e da permanência de práticas alimentares ancestrais mantidas por comunidades indígenas e ribeirinhas.

Mais do que um inventário biológico, a pesquisa evidencia a relação profunda entre território, cultura e alimentação. Muitos dos alimentos identificados fazem parte de repertórios culinários transmitidos pela oralidade e pela prática cotidiana, preservados fora dos circuitos formais da ciência e do mercado.

Nesse sentido, ampliar o conhecimento sobre essas espécies significa também reconhecer e valorizar os saberes alimentares tradicionais, além de abrir caminhos para políticas públicas voltadas à soberania e à segurança alimentar.

O mapeamento realizado pelos pesquisadores aponta que o Brasil possui não apenas uma das maiores biodiversidades do planeta, mas também um vasto patrimônio cultural alimentar ainda pouco documentado. 

Tornar visível essa diversidade pode contribuir para fortalecer sistemas alimentares mais diversos, resilientes e enraizados nos territórios.

@charoth10



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