Hoje quero unir duas dimensões que caminham juntas: a importância de pensarmos a culinária dos Payayás e a diversidade alimentar que expressa sua singular visão de mundo — mas, sobretudo, sua identidade e seu pertencimento.
Estou profundamente emocionado e honrado por participar deste Mutirão. Porque aqui não estamos apenas cozinhando ou produzindo alimentos — estamos reafirmando quem somos. A culinária Payayá é território em movimento. É memória que se faz prática. É conhecimento que não está apenas nos livros, mas nas mãos, no gesto, na repetição que ensina e preserva.
Quando falamos da diversidade alimentar presente na comunidade, falamos de muito mais do que variedade de ingredientes. Falamos de cultura alimentar. Falamos de identidade construída a partir do que se planta, do que se colhe, do que se transforma e do que se compartilha. Cada planta alimentícia tradicional utilizada — e foram muitas até agora — cada técnica de conservação, cada escolha de cultivo revela uma leitura profunda do bioma e dos seus ciclos. Nada é aleatório. Tudo é relação. Tudo é pertencimento.
O queijo de cabra desenvolvido pela comunidade, por exemplo, não é apenas um produto. É afirmação cultural. É tecnologia social enraizada no território. É domínio do tempo do leite, do clima, da cura — mas também domínio da própria narrativa. Em outras culturas, algo assim poderia estar protegido, certificado, exibido nas grandes vitrines do mundo. Aqui, ele nasce da prática cotidiana, do saber compartilhado e da continuidade de um modo de viver.
O mesmo acontece com os doces, as compotas, as conservas. Eles revelam organização, planejamento, visão de futuro. Revelam a compreensão de que a abundância precisa dialogar com o período de escassez. Isso é ciência ancestral aplicada à vida. Isso é cultura alimentar estruturando a sobrevivência e a dignidade.
A diversidade alimentar Payayá reflete uma visão de mundo baseada no equilíbrio: viver com o território e não contra ele. Produzir respeitando o ritmo da terra. Compartilhar como princípio. Sustentar a coletividade como valor central. Identidade, aqui, não é discurso — é prática diária.
Participar deste Mutirão é reconhecer que o Brasil profundo produz excelência. Que há joias sendo gestadas longe dos holofotes. E que pensar a culinária Payayá é também repensar quais saberes escolhemos valorizar, quais identidades fortalecemos e quais histórias permitimos continuar vivas.
Hoje falo com emoção, mas também com consciência: defender essa culinária é defender pertencimento. É defender memória. É defender cultura viva que insiste — e resiste — em florescer.
Chef Alicio Charoth
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