QUEIJO DE CABRA DA CHAPADA DIAMANTINA: TERROIR, INOVAÇÃO E IDENTIDADE NO SEMIÁRIDO

Não falo apenas do sabor. Falo do processo. Falo do cuidado.

Acompanho de perto a excelência que sustenta esse queijo: começa no trato humanizado com as cabras, conduzido por Otto Payayá, que respeita o tempo dos animais e o equilíbrio do território; e segue nas mãos atentas de Valnira, que conduz cada etapa da produção e da maturação com rigor, sensibilidade e profundo compromisso com a qualidade.

Promover esse produto não é apenas exaltar um alimento — é reconhecer um trabalho sério, ético e territorial. É afirmar que excelência também nasce da ancestralidade, do cuidado e da coerência entre discurso e prática.

O queijo de cabra está entre os alimentos mais antigos da humanidade. Há cerca de 8 mil anos, no chamado Crescente Fértil, pastores nômades descobriram que o leite armazenado em bolsas feitas de estômago animal se transformava em coalhada. Era uma solução prática para conservar alimento em longas travessias — e também o nascimento de uma tradição que atravessaria impérios, desertos e montanhas.

Da Mesopotâmia ao Mediterrâneo, o queijo de cabra acompanhou povos que viviam em territórios áridos e pedregosos, onde a cabra, resistente e adaptável, prosperava melhor que o gado bovino. Essa mesma lógica ecoa hoje no semiárido baiano.

Na Chapada Diamantina, no Território Payayá, sob os cuidados do Pajé Otto e com a presença inventiva de Valnira, o queijo de cabra não é apenas produto — é continuidade histórica. As cabras caminham soltas entre pedras antigas, respirando o ar seco da caatinga de altitude, alimentando-se de vegetação nativa que imprime identidade ao leite. O terroir da Chapada não é metáfora: ele se materializa no sabor.

O licuri, palmeira emblemática do semiárido, compõe a paisagem alimentar. As folhas de mandioca, os brotos espontâneos, as ervas resistentes ao sol forte e às chuvas irregulares interferem diretamente na qualidade do leite. A diversidade botânica da caatinga — muitas vezes invisibilizada — oferece uma complexidade aromática singular. O resultado é um queijo que carrega notas minerais, leve acidez e textura firme, moldadas pelo clima de amplitude térmica e pela rusticidade do território.

Mas, se a produção dialoga com uma tradição milenar, o desafio é contemporâneo: o escoamento. O desconhecimento sobre o queijo de cabra ainda limita sua circulação. Persistem preconceitos sobre sabor, digestibilidade e uso culinário. Em muitos mercados locais, a iguaria é vista como exótica, quando, na verdade, é ancestral.

Otto e Valnira enfrentam não apenas as dificuldades logísticas de um território interiorano — estradas, distribuição, acesso a mercados — mas também o desafio simbólico de educar o paladar. Falta informação sobre as qualidades nutricionais do queijo de cabra, sua leveza digestiva e sua versatilidade gastronômica. Falta, sobretudo, reconhecimento do valor cultural de um produto que nasce de uma relação equilibrada entre animal, paisagem e comunidade.

Há, contudo, uma potência latente. O mesmo semiárido que impõe limites oferece singularidade. O queijo Payayá pode se afirmar como expressão da Chapada Diamantina, articulando tradição indígena, saber pastoral e biodiversidade local. Assim como no passado o queijo de cabra garantiu sobrevivência em terrenos inóspitos, hoje ele pode garantir autonomia econômica e afirmação cultural.

Do Crescente Fértil às serras da Bahia, a história do queijo de cabra continua sendo escrita por mãos que entendem que alimento é território. No Território Payayá, ele não é moda nem tendência gourmet — é memória viva, resistência e possibilidade de futuro.

Queijos que valorizam o "Terroir" local.

A valorização do terroir deixou de ser exclusividade dos vinhos e dos azeites. Na Chapada Diamantina, onde já despontam produções de alto valor agregado como o azeite de oliva e derivados de frutas nativas, um outro protagonista começa a ganhar densidade econômica e cultural: o queijo de cabra.

Durante minha visita ao Território Payayá, acompanhei todas as etapas da cadeia produtiva — da ordenha nas primeiras horas da manhã ao beneficiamento final. O leite é retirado com cuidado, em um ambiente limpo, com manejo respeitoso dos animais. Não se trata apenas de técnica, mas de vínculo. Cada cabra é conhecida, observada, acompanhada.

Esse cuidado diário impacta diretamente na qualidade do produto. A rastreabilidade não é um protocolo formal apenas — é uma prática viva. O leite segue imediatamente para processamento, preservando frescor, acidez equilibrada e características sensoriais que revelam o território.

O momento da maturação é, talvez, o mais revelador. É ali que o terroir se aprofunda. A utilização de insumos locais como o licuri — símbolo do semiárido — abre possibilidades aromáticas singulares. A manipueira, tradicionalmente associada ao processamento da mandioca, surge como elemento experimental que dialoga com técnicas ancestrais. O açafrão-da-terra imprime cor e notas terrosas. E um tempero elaborado a partir das folhas do aipim demonstra inteligência territorial: nada é externo, tudo conversa com a paisagem.

Esses elementos não funcionam como adereços gastronômicos. São camadas identitárias. O queijo absorve nuances da vegetação da caatinga, da amplitude térmica da Chapada, da alimentação dos rebanhos e da criatividade dos produtores. O resultado é um produto com assinatura própria — mineral, levemente ácido, com textura firme e personalidade marcada.

Num momento em que o mercado busca autenticidade, a Chapada Diamantina apresenta condições reais para consolidar um queijo de cabra com identidade geográfica forte. O desafio permanece no reconhecimento e na ampliação de mercado, mas a base está construída: técnica apurada, matéria-prima qualificada e um território que imprime caráter.

Mais do que um alimento, trata-se de um projeto de desenvolvimento local. Valorizar o queijo de cabra da Chapada é reconhecer que o semiárido não é sinônimo de escassez, mas de potência criativa. O terroir, aqui, não é conceito importado — é prática cotidiana.


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