POLÍTICA DA FOME: QUANDO O MERCADO VALE MAIS QUE A VIDA



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A votação na ONU e o significado político

Em 2021, praticamente todos os países membros das Nações Unidas (cerca de 180) votaram a favor de uma resolução que reafirmava o direito à alimentação adequada como um direito humano fundamental.

Apenas os Estados Unidos e Israel votaram contra essa resolução. Essa oposição foi motivada, segundo os EUA, por preocupações de que o texto incluísse conceitos que poderiam justificar restrições ao comércio internacional, como o que se chama de “soberania alimentar”. 

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Esse voto não é um detalhe diplomático, mas reflete uma concepção política e econômica:

tratam a comida como mercadoria ou como resultado dos mecanismos de mercado;

não reconhecem a alimentação como um direito vinculante sob lei internacional, mas sim como algo dependente de políticas, comércio e contratos econômicos. 

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Essa posição tem impacto nas discussões sobre políticas públicas e cooperação internacional, porque fragiliza propostas que defendem um sistema alimentar centrado nas necessidades humanas e não nos lucros.

A fome no mundo: o que dizem os dados recentes

Segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2025, divulgado por cinco agências da ONU (incluindo FAO, UNICEF, OMS e PMA):

Cerca de 673 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2024, o que corresponde a cerca de 8,2% da população mundial. �

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Apesar dessa ligeira queda em relação a anos anteriores, o progresso é desigual, com fome crescendo em muitas partes da África e da Ásia Ocidental. �

FAOHome

Estima-se que entre 638 e 720 milhões de pessoas enfrentaram alguma forma de fome ou insegurança alimentar grave no período. �

As Nações Unidas em Brasil

Outros levantamentos apontam que 2,3 bilhões de pessoas — mais de um quarto da população mundial — não conseguem comprar uma dieta saudável, mesmo produzindo alimentos suficientes globalmente para todos. 

World Socialist Web Site

Esses números mostram que a fome não é problema de produção, mas de acesso, distribuição e poder econômico.

Fome e conflitos: o caso de Gaza

Em várias partes do mundo onde há conflitos armados, a fome se intensifica como resultado direto de bloqueios, destruição de infraestruturas e restrições à circulação de alimentos:

Gaza passou por uma emergência alimentar grave, com grande parte da população enfrentando severas condições de insegurança alimentar devido a bloqueios e restrições prolongadas. �

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Relatórios conjuntos da ONU estimaram que centenas de milhares de pessoas em Gaza enfrentam níveis críticos de fome, com projeções de que dezenas de milhares de crianças e mães precisarão de tratamento por desnutrição aguda. 

UNICEF

Análises indicam que a fome não é apenas uma consequência inevitável da guerra, mas resultado da interrupção do acesso à alimentação e à ajuda humanitária. 

UNICEF

Organizações de direitos humanos e conselhos nacionais de segurança alimentar (como o CONSEA no Brasil) têm denunciado o uso da fome como instrumento de guerra e bloqueio contra civis, exigindo corredores humanitários e acesso irrestrito a ajuda. 

Serviços e Informações do Brasil

4. Quem produz o alimento e por que isso não resolve a fome

O mundo, hoje, produz alimentos em quantidade suficiente para alimentar toda a população. No entanto:

Grande parte da produção é controlada por conglomerados do agronegócio e mercados financeiros, que estabelecem preços, fluxos de exportação/importação e lucros, muitas vezes deixando países pobres em desvantagem competitiva.

A comida é tratada como ativo de mercado: sua circulação está sujeita a regras comerciais, especulação financeira e interesses de grandes corporações.

Mesmo com produção suficiente, milhões de pessoas não têm acesso físico ou renda para obter alimentos adequados. �

World Socialist Web Site

Esse modelo concentra riqueza e poder em poucos atores econômicos, enquanto grandes parcelas da população global continuam a passar fome ou lutam contra a insegurança alimentar.

Direitos humanos, política e alternativas

A fome, nesses contextos, é vista por muitas organizações e ativistas como resultado de estruturas econômicas e políticas, não de uma suposta “escassez natural”.

Reconhecer o direito à alimentação implicaria:

Estados assumirem responsabilidade jurídica de garantir políticas que assegurem acesso à alimentação;

Limitar o poder de mercado que atende mais ao lucro do que às necessidades humanas;

Promover sistemas alimentares sustentáveis e equitativos.

Críticos do modelo econômico dominante argumentam que reformular os sistemas de produção e distribuição, orientando-os às necessidades humanas e não ao lucro, é uma condição fundamental para combater a fome de forma duradoura.

Conclusão

A votação dos EUA e de Israel contra uma resolução que reconheça a alimentação como direito humano não é um detalhe técnico: ela simboliza uma visão de mundo em que os alimentos são tratados principalmente como mercadoria, dependentes de regras de mercado e interesses geopolíticos.

Enquanto isso:

milhões ainda passam fome ou enfrentam insegurança alimentar extrema;

conflitos transformam a comida em arma de bloqueio e poder;

a produção global de alimentos continua suficiente, mas mal distribuída.

Garantir o direito à alimentação, para muitos defensores dos direitos humanos, é reconhecer que a comida não pode ser reduzida a mercadoria, e que políticas públicas, cooperação internacional e mudanças profundas no sistema econômico são necessárias para que ninguém passe fome.



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