PODER CULTURAL: QUEM NÃO ENTENDE ISSO, VAI CONTINUAR ACHANDO QUE É “SÓ COMIDA”

Poder cultural não é entretenimento.

É a capacidade de definir narrativas, de estabelecer o que é legítimo, belo, sofisticado, civilizado — e o que é visto como exótico, popular ou descartável. Quem controla os símbolos, controla a forma como os povos são percebidos. Cultura é território simbólico. E território também é poder.

🐰 Bad Bunny serviu tempero e cultura neste fim de semana no intervalo do #SuperBowl — e mostrou ao mundo algo essencial: comer é uma forma de dizer quem você é e de onde vem. O cantor levou sua língua, suas referências e cenas da vida cotidiana porto-riquenha — coco frio, piragua e toda uma celebração da cultura latina — para o palco mais assistido da televisão mundial, representando seu povo em um momento de enorme visibilidade global. 

AOL · 1

“O que eu faço, eu faço de coração. Faço-o como meu dever, mas o meu dever como porto-riquenho, como ser humano... não como artista. Acredito que todo ser humano tem o dever de ter empatia pelo próximo, de ajudar os outros, de respeitar, de tentar sempre contribuir com algo para a sociedade, de trazer uma mudança positiva", Bad Bunny ao VF  

No campo da alimentação, isso é exatamente o que muitas pessoas ainda não conseguem ver: a comida não é só sabor — ela é identidade, representatividade, memória e luta.

Em um país e em um mundo atravessados por racismo estrutural, colonialismo e normas hegemônicas que ditam “o que é bom”, afirmar a própria culinária é um gesto político. Não é só servir pratos; é afirmar presença, contar histórias e recuperar sentidos.

E a culinária baiana e brasileira opera nesse mesmo campo de força. Não se trata simplesmente de acarajé, vatapá ou caruru como receitas quentes e gostosas — são narrativas inscritas em cada ingrediente, em cada gesto, em cada forma de partilhar a mesa. A culinária baiana carrega:

Sabedoria africana e indígena transformada em potência alimentar;

Modos de viver e estar no mundo que foram negados e ainda resistem ao apagamento;

Tecnologia social: quem planta, colhe, cozinha e conta a história do que está na panela;

Festa e espiritualidade entrelaçadas com o ato de alimentar.

Isso é poder cultural materializado em comida — assim como Bad Bunny colocou sua cultura no centro da maior audiência global, a culinária baiana coloca sua história na mesa do mundo, exigindo reconhecimento.

A disputa cultural não é sobre sabor.

É sobre narrativa e legitimidade.

Quem define o que é “alta culinária”?

Quem separa “comida de verdade” de “gourmet”?

Quem lucra com tradições e quem permanece invisível?

Sem entender isso, muita gente da área da alimentação continua olhando para ingredientes cheios de história como se fossem objetos neutros — e perde a dimensão política, estética e afetiva que eles carregam.

A culinária baiana me ensinou outra coisa:

comer é afirmar território.

É afirmar ancestralidade.

É dizer “eu estou aqui e minha história importa”.

Num mundo que tenta padronizar tudo — sabores, corpos, modos de viver — cozinhar a própria cultura é um ato de afirmação. É afirmar que nossas histórias não serão silenciadas.

Quem entende isso para de ver comida como produto.

E começa a enxergá-la como o que ela sempre foi:

um dos maiores instrumentos de poder cultural que um povo pode ter.

Resumo dos principais pensadores do tema:

Antonio Gramsci (1891-1937)

· Conceito Central: Hegemonia Cultural

· Ideia Principal: O poder da classe dominante se mantém não só pela força, mas principalmente pelo consentimento obtido ao estabelecer seus valores e visão de mundo como os únicos válidos e universais na sociedade.

· Vínculo com o Exemplo: O ato do Bad Bunny não é apenas entretenimento, mas uma intervenção direta na disputa hegemônica, ao apresentar elementos culturais específicos como legítimos e dignos do palco global mais mainstream.

Pierre Bourdieu (1930-2002)

· Conceito Central: Campo, Capital Simbólico

· Ideia Principal: A sociedade é um espaço de múltiplos "campos" (artístico, intelectual, etc.) onde agentes lutam por diferentes formas de capital. No campo cultural, a disputa é pelo capital simbólico (prestígio, legitimidade, autoridade) e pelo direito de definir o que é considerado cultura "legítima" ou "sofisticada".

· Vínculo com o Exemplo: Ao atuar no Super Bowl, Bad Bunny operou em um campo de enorme visibilidade. Sua performance foi uma jogada para acumular e converter capital simbólico para sua cultura, desafiando hierarquias de gosto e legitimidade.

Michel Foucault (1926-1984)

· Conceito Central: Poder Disciplinar, Poder Produtivo

· Ideia Principal: O poder não é apenas repressivo, mas produtivo. Ele atua de forma difusa, produzindo discursos, normas e saberes que definem o que é "verdade", "normal", "civilizado" ou "exótico", moldando a percepção que temos de nós mesmos e dos outros.

· Vínculo com o Exemplo: A performance pode ser vista como um contradiscurso que questiona as narrativas dominantes sobre o que é a cultura latina, oferecendo uma auto-representação que foge dos estereótipos muitas vezes exotificados.

Escola de Frankfurt (Séc. XX)

· Principais Nomes: Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamin.

· Conceito Central: Indústria Cultural

· Ideia Principal: Analisaram como a cultura, sob o capitalismo, se torna uma mercadoria massificada pela "Indústria Cultural", podendo servir para diluir o pensamento crítico e homogeneizar o gosto. Walter Benjamin, por sua vez, viu potencial emancipatório nas novas técnicas de reprodução artística.

· Vínculo com o Exemplo: A apresentação acontece no epicentro da indústria cultural estadunidense. A questão é se ela se torna um produto assimilado por esse sistema ou se consegue usar o canal massivo para transmitir uma mensagem autêntica e crítica.

💎 Síntese: O Poder Cultural em Ação

Esses teóricos nos ajudam a enxergar a performance não como um ato isolado, mas como um evento político no campo simbólico.

A ação do Bad Bunny conecta-se diretamente com as ideias de:

· Gramsci, ao buscar contra-hegemonia ao dar visibilidade global a uma cultura frequentemente marginalizada ou folclorizada nos meios dominantes.

· Bourdieu, ao disputar legitimidade em um campo (o entretenimento de massa) e tentar revalorizar o capital simbólico de suas referências culturais.

· Foucault, ao produzir um discurso próprio que define "porto-riquenidade" a partir de elementos cotidianos e afetivos (o coco frio, a piragua), em vez de aceitar definições externas.

🔍 Outros Nomes e Desdobramentos

Para aprofundar o tema, outros pensadores e conceitos são relevantes:

· Stuart Hall: Fundamental para os Estudos Culturais, analisou como a identidade e a diferença são construídas pela representação midiática.

· Edward Said: Com o conceito de "Orientalismo", mostrou como o Ocidente constrói uma imagem exotificada e inferior do "Oriente" como forma de exercer domínio cultural e político.

· Steven Lukes: Propôs uma visão tridimensional do poder, onde a forma mais insidiosa é a capacidade de moldar os desejos e percepções das pessoas, fazendo-as aceitar uma ordem que vai contra seus interesses.

A apresentação do Bad Bunny foi, portanto, uma aula prática de Poder Cultural: uma tentativa bem-sucedida de ocupar território simbólico, redefinir narrativas e afirmar a legitimidade e sofisticação de uma identidade cultural em um dos palcos de maior visibilidade do planeta.

@charoth10

Comments

Popular posts from this blog

MARLI BRITO E O PULSAR BAIANO NO SÃO VICENTE

OFICINA SOTOKO EM GENEBRA: OBSERVAÇÕES ANALÍTICAS SOBRE CULTURA ALIMENTAR E DIVERSIDADE