OS PERIGOS DE TRATAR CULTURA ALIMENTAR COMO “TENDÊNCIA GASTRONÔMICA”
Outro dia, li uma matéria tratando saberes alimentares brasileiros como “tendências gastronômicas”. Confesso: dá uma coceira mesmo — porque não é só um erro de linguagem. É apagamento.
A recorrente classificação de práticas alimentares tradicionais como “tendências gastronômicas” não é apenas um equívoco terminológico. Trata-se de um sintoma de um processo mais profundo de colonialidade do saber, no qual sistemas de conhecimento enraizados em territórios, histórias e coletividades são reconfigurados segundo a lógica do mercado e da novidade.
Cultura alimentar é um campo de produção de sentido que envolve memória, cosmologia, tecnologia social, organização do trabalho, relação com o ambiente e transmissão intergeracional de saberes. Quando esse conjunto complexo é enquadrado como tendência, ocorre uma operação de deshistoricização e despolitização: o que era processo passa a ser estilo; o que era continuidade vira novidade; o que era saber coletivo se transforma em produto.
Colonialidade do gosto e hierarquia dos saberes
A colonialidade não opera apenas na ocupação do território, mas também na classificação dos conhecimentos. Saberes alimentares de matrizes indígenas, africanas e camponesas historicamente foram desvalorizados como “atrasados”, “simples” ou “de subsistência”. No entanto, quando passam a ser validados por circuitos de prestígio — mídia especializada, alta restauração, mercado gourmet — são recodificados como inovação.
Esse deslocamento revela uma hierarquia implícita: o saber só adquire legitimidade plena quando é mediado por agentes reconhecidos pelo sistema hegemônico (chefs, curadores, marcas, publicações). Assim, o que as comunidades sempre souberam passa a existir socialmente apenas quando “descoberto”.
Trata-se de uma forma de epistemicídio simbólico: o conhecimento não desaparece, mas perde autoria, contexto e função social.
A lógica do mercado e a captura da tradição
O discurso da tendência é estruturalmente ligado à economia da novidade. Ele exige rotatividade, atualização constante e capacidade de conversão em valor de mercado. Ao ser inserida nesse circuito, a cultura alimentar sofre um processo de extração:
Retira-se o elemento do seu território e da sua rede de relações;
Simplifica-se sua narrativa para torná-la comunicável;
Estetiza-se sua forma;
Converte-se em experiência vendável.
O que se perde nesse percurso é justamente o que constitui cultura alimentar: sua função de sustento, sua dimensão comunitária, sua inserção em ecossistemas locais e sua historicidade. O alimento deixa de ser parte de um sistema de vida e passa a ser signo de consumo.
Apropriação cultural e deslocamento de protagonismo
Esse processo também produz um deslocamento de protagonismo. Comunidades que mantêm práticas alimentares por necessidade, tradição e pertencimento raramente ocupam os espaços de fala quando esses saberes ganham visibilidade midiática. O foco se transfere para intermediários — profissionais do setor gastronômico, consultores, influenciadores — que operam como tradutores entre o saber tradicional e o mercado.
A apropriação cultural, nesse contexto, não é apenas uso de elementos simbólicos, mas apropriação de sistemas de conhecimento, frequentemente sem retorno material, reconhecimento autoral ou participação nas cadeias de valor geradas.
Da cultura à mercadoria
Ao ser enquadrada como tendência, a cultura alimentar é submetida à temporalidade do consumo, não à temporalidade da tradição. Ela passa a existir enquanto durar seu apelo comercial. Quando a novidade se esgota, o mercado se desloca — mas as comunidades permanecem, muitas vezes com seus saberes descontextualizados e seus territórios ainda mais pressionados.
O risco maior não é apenas a banalização, mas o esvaziamento de sentido. A cultura alimentar deixa de ser entendida como patrimônio vivo e passa a ser tratada como repertório disponível para exploração estética.
Disputa de narrativa, disputa de poder
Nomear não é neutro. Definir cultura alimentar como tendência é inscrevê-la na gramática do mercado, não na gramática dos direitos culturais, da memória coletiva ou da soberania alimentar. Essa operação desloca o debate da esfera política para a esfera do consumo.
Reafirmar a cultura alimentar como campo de conhecimento, e não como moda, é também uma forma de resistir à colonialidade contemporânea, que transforma diversidade cultural em matéria-prima simbólica para a economia criativa, ao mesmo tempo em que mantém as estruturas de desigualdade que marcam os territórios de origem desses saberes.
@charoth10
#elcocineroloko

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