NEM TODO SABER USA JALECO — E NEM POR ISSO SABE MENOS

Existe uma coincidência bonita entre línguas que diz muito mais do que parece: em espanhol, “saber” (conhecimento) e “sabor” (gosto) quase se tocam. Mudam duas letras — mas falam da mesma raiz: experimentar o mundo.

Quando @lidianeodasilva afirma que nem todo saber nasce na universidade, mas todo saber que sustenta a vida merece respeito, ela desloca o debate do campo da retórica para o campo da existência. Sua fala questiona o próprio critério que define o que é reconhecido como conhecimento legítimo na sociedade moderna.

A supremacia epistêmica — essa ideia de que apenas o saber científico-institucional produz verdade — é um dos pilares da colonialidade. Ela não apenas organizou hierarquias entre povos, mas também entre formas de conhecer. Ao separar o que seria “ciência” do que seria “tradição”, o pensamento moderno construiu uma fronteira que desqualifica experiências, práticas e sistemas de saber que não cabem na linguagem técnica ou nos protocolos acadêmicos.

Contrário ao que chamou "educação bancária" (o depósito de conhecimento nos estudantes), Freire defende uma educação que parte dos saberes daqueles que, não se reduzindo a depósitos de um saber externo, são protagonistas da criação de uma conhecimento que se faz no diálogo entre "aquilo que trago" e "aquilo que trazes".

Quando pensamos a partir do que Nego Bispo chama de “saberes de existência”, a discussão muda de lugar. Ele nos provoca a entender que há conhecimentos que não nascem do desejo de explicar o mundo para dominá-lo, mas da necessidade de existir dentro dele sem destruí-lo.

A cultura alimentar é um dos territórios onde essa disputa se torna mais visível.

O que acontece nas cozinhas tradicionais não é repetição mecânica de costumes, mas produção contínua de conhecimento. Cada técnica culinária ancestral é resultado de séculos de observação do ambiente, adaptação às condições ecológicas, experimentação sobre o corpo e transmissão pedagógica entre gerações. Trata-se de um saber situado, relacional e ecológico — diferente da ciência moderna em sua forma, mas não inferior em complexidade.

As Mestras dos Saberes Culinários operam sistemas de conhecimento integrados. Quando definem o tempo de colheita, o ponto do fogo, a combinação entre ingredientes, ou a adequação de um preparo ao clima e ao corpo de quem consome, estão articulando variáveis ambientais, fisiológicas e culturais. Esse processo envolve classificação, comparação, teste, correção e memória coletiva — procedimentos que, em outra gramática, também estruturam o método científico.

A diferença central está na epistemologia, não na inteligência.

A ciência moderna tende a fragmentar, isolar variáveis e buscar universalização.

Os saberes tradicionais operam pela integração, pelo contexto e pela relação entre vida, território e coletividade.

Ao longo da história, o conhecimento culinário das mulheres — sobretudo negras, indígenas, quilombolas e camponesas — foi reduzido à esfera do doméstico, como se o espaço da casa não fosse também um laboratório social, nutricional e ecológico. Essa desvalorização não foi acidental: ela acompanha a lógica colonial e patriarcal que separa mente e corpo, teoria e prática, produção e cuidado.

Enquanto isso, técnicas ancestrais são apropriadas pela indústria alimentar, rebatizadas como inovação, descontextualizadas de seus territórios e convertidas em mercadoria. O que antes era saber comunitário vira propriedade intelectual.

Reconhecer a equivalência entre saberes tradicionais e científicos não significa negar a ciência, mas questionar sua pretensão de exclusividade. Significa afirmar que existem múltiplas formas legítimas de produzir conhecimento sobre a vida. E que, no campo da alimentação, os saberes tradicionais demonstraram, historicamente, uma capacidade notável de sustentar corpos, preservar ecossistemas e manter coesão social.

A cozinha tradicional, portanto, não é resíduo do passado.

É tecnologia de permanência.

É ciência da relação.

É política do cuidado.

E talvez o critério mais rigoroso de validação esteja justamente onde a academia raramente olha: na continuidade. Se um sistema alimentar atravessa gerações nutrindo comunidades, ele carrega uma eficácia que não pode ser descartada apenas porque não foi escrita em linguagem técnica.

Nem todo saber usa jaleco.

Alguns usam avental — e sustentam o mundo em silêncio.

@charoth10

#Elcocineroloko


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