Entre o ódio ao PT e o voto num corrupto, que faz "rachadinha" e compra imóveis com dinheiro vivo, há uma grande distância.

Entre declarar repulsa à corrupção e votar em alguém envolvido em esquemas ilícitos há, à primeira vista, uma contradição moral.

Mas a política real raramente é movida por coerência ética.

Ela é atravessada por afetos, identificações e forças inconscientes que moldam a forma como o sujeito enxerga o mundo.

O ódio se alimenta de fronteiras e exclusões, de inimigos claros e narrativas de separação. Ele organiza identidades pela negação do outro e cria zonas de conforto emocional em torno de agressões repetidas. Já o amor, ao contrário, demanda atenção: olhar para o outro como humano, mesmo considerando as injustiças que nos cercam. Amor aqui não é ingênuo — é um ato de coragem política e social.

👉Para entender esse fenômeno, é preciso sair da análise moralista.

O voto contraditório não é apenas falha de caráter individual.

É sintoma.

É quando não se defende um projeto — defende-se um ódio.

Quando a identidade não nasce de valores, mas da escolha de um inimigo.

É quando sentir raiva dá mais prazer do que pensar.

👉“O problema não é por que as pessoas são enganadas, mas por que elas desejam sua própria servidão.”

Quando a indignação se torna um vício emocional.

É quando a pessoa sabe, vê, entende…

mas escolhe a desculpa confortável em vez da verdade que desorganiza.

É quando os atos deixam de importar —

o que importa é de que lado está quem os cometeu.

É quando a consciência é terceirizada para o grupo

e o julgamento moral passa a ser visto como traição.

Não é falta de informação.

É apego afetivo à própria ilusão.

Não é cegueira.

👉 O problema não é a contradição.

É o empobrecimento do desejo.

É recusa em enxergar aquilo que ameaça a identidade construída no ódio.

Não é ignorância.

É captura do desejo.

Não é erro lógico.

É investimento libidinal.

Não é só política.

É economia do desejo.

Não é sobre corrupção.

É sobre a necessidade de um mundo simples, com culpados claros.

Em tempos de divisão, o amor atua como resistência criadora: ele reconstrói laços sociais quebrados, restaura empatia e aponta para horizontes onde a convivência é possível mesmo na diferença. É um lembrete de que, se queremos verdadeiramente transformar o mundo, não basta combater o ódio: é preciso cultivar formas de amar que nos tornem mais humanos, mais conectados e mais justos.


@charoth10


#elcocineroloko

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