DO MILHO ANCESTRAL AO DENDÊ BAIANO, TRÊS COZINHAS ATRAVESSAM O ATLÂNTICO NÃO COMO ROTA TURÍSTICA DE SABORES, MAS COMO TERRITÓRIO MARCADO POR DESLOCAMENTOS FORÇADOS, RESISTÊNCIAS E REINVENÇÕES.

Mas também foi lugar de criação involuntária de mundos culinários novos — onde técnicas, crenças e ingredientes sobreviveram à brutalidade colonial e se transformaram em linguagem.

Não se trata apenas de troca cultural, mas de transformação histórica.

A chef colombiana Antonuela Ariza apresenta um tamale de milho com camarão e pupunha ensopados em leite de coco e ervas frescas. O milho, base civilizatória de povos originários das Américas, aparece aqui não como ingrediente exótico, mas como memória indígena persistente. O coco e o camarão revelam o diálogo afro-caribenho que nasceu da diáspora forçada. A versão vegetariana reafirma a centralidade do milho como estrutura, lembrando que tradição não é fixidez, mas continuidade adaptativa.

A francesa Marie-Jo propõe pão frito no dendê com berinjela, cebette, queijo e ervas frescas — ou com carne suína marinada e lentamente cozida, desfiada e envolta em molho picante. O gesto de usar o dendê desloca o ingrediente de seu território original — matriz afro-brasileira — para um campo de experimentação europeia. Aqui, a técnica francesa encontra uma gordura marcada pela história da escravização e da resistência africana no Brasil. O prato não ignora essa tensão: evidencia que nenhum ingrediente circula inocentemente pelo mundo.

Da Bahia, Alicio Charoth apresenta a Kizomba de Camarão com akassá e farofa de licuri. “Kizomba”, palavra de origem angolana, significa celebração coletiva — mas sua raiz é política. A celebração afro-diaspórica sempre foi também ato de sobrevivência. O akassá carrega a herança iorubá; o licuri evoca os territórios sertanejos; o camarão reafirma o mar como espaço de subsistência e memória. O prato não representa fusão, mas continuidade histórica: uma cartografia da diáspora servida como partilha.

Em “Atlântico em Festa”, cada preparo reconhece que o oceano foi cenário de violência e, ao mesmo tempo, laboratório de criação cultural. O Atlântico não é apenas ponte — é campo de tensão. E é dessa tensão que nasce a culinária que hoje celebramos.

Aqui, celebrar não é esquecer.

É lembrar enquanto se cozinha.


https://www.calameo.com/books/00790189964de6ce84d52

@charoth10

#Elcocineroloko

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