CULINÁRIA, COSMOLOGIA BANTU E CIÊNCIA MODERNA: UMA CONVERSA ENTRE TEMPOS E SABERES

Nas tradições Bantu, a comida é parte indissociável de uma visão cosmológica mais ampla, em que seres humanos, natureza, ancestrais e o cosmos formam um contínuo — e não esferas separadas. Essa percepção, que em grande parte é transmitida por práticas orais e rituais, contrasta com a narrativa dominante da ciência moderna, mas também oferece pontos de convergência surpreendentes. 

Confira os vídeos do @umbangu_ — um espaço cultural virtual focado em decolonialidade —Criado e gerido por Rose Mara Kielela @rosemarakielela. sobre a conexão ancestral entre culinária e cosmologia Bantu, articulando essa tradição com a nutrição e a ciência moderna.

📍 Os vídeos originais podem ser vistos aqui:

➡️ https://www.instagram.com/reel/DUs8MghEVFE/?igsh=MXRydmZsMThhZGtsbQ==

➡️ https://youtube.com/shorts/qj4uftzFhxM?si=tw05hvaDpFQYObl7

Repositório da Produção USP

A cosmologia Bantu como matriz alimentar e espiritual

A cosmologia dos povos Bantu-Kongo — um vasto grupo linguístico-cultural da África Ocidental — é descrita como um sistema de pensamento em que a vida, a morte, o mundo físico e o espiritual estão continuamente interconectados. Essa cosmovisão incorpora elementos como o Dikenga Dia Kongo, um símbolo que representa os ciclos de existência e a continuidade entre diferentes planos da vida. �

Contemporary And (C&)

Nessa perspectiva, a alimentação não é apenas combustível corpo-mente, mas também um ato que reproduz a ordem cósmica e fortalece os laços comunitários e ancestrais. Cerimônias e alimentos sagrados em contextos religioso-cultuais exemplificam essa relação, onde ingredientes e preparos incorporam simbolismos ligados ao equilíbrio entre o ser humano e o universo. �

Periódicos Unimontes

Os vídeos do Umbangu reforçam essa compreensão ancestral: cozinhar, alimentar outros e partilhar comida são expressões de pertencimento, reciprocidade e continuidade com quem veio antes — e com tudo o que sustenta a vida.

Um diálogo com a ciência nutricional contemporânea

No campo da nutrição moderna, alimentos são frequentemente analisados pelo seu conteúdo de proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais. A ciência busca compreender como esses componentes influenciam a saúde física, metabólica e cognitiva.

Ainda que essa abordagem pareça distante das cosmologias tradicionais, existe um ponto de encontro importante: tanto a ciência quanto as tradições Bantu valorizam a alimentação como fator determinante para o bem-estar humano.

No entanto, a cosmologia Bantu agrega camadas que a ciência moderna, muitas vezes, trata apenas como “contexto social” — como o papel simbólico da comida nas relações familiares, comunitárias e espirituais. A valorização do coletivo, da partilha e do cuidado mútuo está no coração dessa epistemologia. �

Repositório da Produção USP

Descolonizar o olhar sobre alimentação

O trabalho de espaços como o @umbangu_ — parte de uma iniciativa mais ampla de educação e arte decolonial — desafia a narrativa hegemônica que separa “nutrição” e “espiritualidade”. Nas tradições Bantu e em muitas outras culturas ancestrais, alimentação e cosmologia são inseparáveis. Essas tradições não veem o organismo humano como um sistema fechado isolado da natureza, mas como parte de um ecossistema mais amplo que inclui as relações sociais e o mundo espiritual. 

Umbangu

Essa perspectiva questiona a cisão moderna entre corpo e espírito e propõe uma leitura onde o alimento é, ao mesmo tempo:

biologia (nutrição),

cultura (prática social),

cosmologia (relacionamento com o universo e os ancestrais).

Por que isso importa hoje

A ciência nutricional contemporânea reconhece cada vez mais que padrões de alimentação saudáveis são também padrões culturais — e que a relação emocional, social e simbólica com a comida influencia a saúde tanto quanto seus nutrientes objetivos.

Na mesma direção, a cosmologia Bantu recorda que alimentar não é apenas nutrir um corpo individual, mas manter a vida de uma comunidade, de um território, de uma história partilhada. Essa compreensão amplia o olhar para o que significa verdadeiramente “alimentar-se bem” — não apenas em termos biológicos, mas em termos de bem-estar coletivo e continuidade cultural.

Conclusão

O diálogo entre tradições ancestrais como a cosmologia Bantu e a ciência nutricional moderna não é uma fusão simplista de mitos e métodos científicos, mas uma oportunidade de expandir a compreensão do que é saúde, nutrição e alimentação.

Espaços como Umbangu, ao colocarem em evidência saberes ancestrais, convidam a sociedade a repensar a alimentação não apenas como ingestão de nutrientes, mas como um ponto de encontro entre corpo, espírito, natureza e comunidade — ressignificando o alimento em sua dimensão mais profunda.

Se quiser, posso ampliar esse texto com referências antropológicas ou exemplos de práticas específicas nos terreiros e na culinária de matriz africana Bantu.

Rose Mara Kielela é multiartista, arte-educadora, capoeirista, psicomotricista, bacharel em dança e especialista em neurociência e educação pelo CBI of Miami. Pesquisa e produz trabalhos artísticos em afroperspectiva e em afinidade com a opção decolonial. É geradora/gestora do Umbangu - Espaço Cultural Virtual de Ação Decolonial, facilitadora do Brincar Terapêutico para crianças com necessidades educativas especiais e criadora de Zola Performatividade Terapêutica para Mulheres. Exibiu suas obras em eventos como FUSO – Festival Internacional de Video Arte de Lisboa (Portugal, 2017), 4a Neuquén Bienal Contemporáneo (Argentina), 18a Dak'art Biennale (Senegal), Joburg Fringe Festival de Vídeo Arte ( África do Sul) e Exposition D'Art Contemporain D'Afrique 2018 (Marrocos), percorrendo 12 países (Angola, Uruguai, Argentina, México, Espanha, Itália, USA, Reino Unido, etc).

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