CONEXÕES ENTRE ALIMENTO, TERRITÓRIO E DIREITOS DA TERRA:

Falar de alimento fora do território é uma abstração conveniente ao mercado.

Falar de culinária sem falar de terra é reproduzir o apagamento.

A comida tradicional não é apenas um conjunto de receitas: ela é um sistema complexo que articula solo, clima, memória, espiritualidade, técnicas sociais e relações de poder. O que se come é inseparável de onde se vive. O território não é cenário — é fundamento.

O território como matriz da culinária

Em comunidades quilombolas e indígenas, o território organiza o calendário alimentar. O tempo da colheita, o ciclo das águas, a presença do mangue, do roçado de quintal, da mata, das folhas alimentícias tradicionais — tudo determina o que se prepara e como se prepara.

Não se trata apenas de produção agrícola. Trata-se de cosmologia.

A perda do território implica a perda de autonomia alimentar. E a perda de autonomia alimentar implica dependência de cadeias industriais que homogeneízam o paladar, empobrecem a diversidade e enfraquecem vínculos comunitários.

Sem território assegurado, a culinária tradicional torna-se frágil.

Sem direito à terra, não há continuidade do saber.

Direitos da terra como política alimentar

A luta por demarcação e regularização fundiária é também uma luta por soberania alimentar. Defender a terra é defender:

Sementes crioulas

Técnicas de fermentação

Saberes sobre folhas e raízes

Criação doméstica de pequenos animais

Pesca artesanal

Sistemas de troca comunitária

Quando o Estado falha em garantir esses direitos, o impacto não é apenas jurídico ou econômico — é cultural e epistêmico. Rompe-se a cadeia de transmissão oral que sustenta a culinária tradicional.

As Mestras dos Saberes Culinários: intelectuais da terra

No centro dessa trama estão as Mestras dos Saberes Culinários. Mulheres, em sua maioria idosas, que acumulam décadas de observação, experimentação e prática. São pesquisadoras empíricas do território. São arquivos vivos.

No entanto, enfrentam um duplo ou triplo apagamento:

Por serem mulheres

por serem idosas (etarismo)

por serem negras ou indígenas

por estarem fora dos circuitos de prestígio econômico

Vivemos numa sociedade que valoriza a inovação acelerada, a performance midiática e a juventude como capital simbólico. O conhecimento lento, transmitido no quintal, no pilão, no fogo a lenha, é considerado atraso.

O etarismo atua como mecanismo silencioso de exclusão. A idade, que deveria significar autoridade e acúmulo de saber, transforma-se em invisibilidade. Muitas Mestras só são reconhecidas quando já estão em processo de esgotamento físico — e, em inúmeros casos, morrem sem que seus saberes tenham sido registrados ou valorizados.

Quando uma Mestra parte, não se perde apenas uma receita.

Perde-se um modo de ler o território.

O mercado e a captura da tradição

No contexto contemporâneo, observa-se um fenômeno paradoxal: enquanto as Mestras são invisibilizadas, seus saberes são apropriados.

A culinária tradicional é frequentemente capturada por narrativas de mercado que a transformam em produto “autêntico”, “raiz” ou “experiência sensorial”. O território vira marca. A ancestralidade vira estética. A tradição vira tendência.

Esse processo desloca o protagonismo: a Mestra deixa de ser sujeito e passa a ser referência decorativa.

A crítica não é à circulação da culinária, mas à forma desigual como essa circulação ocorre. Quem lucra? Quem é reconhecido? Quem decide os termos da narrativa?

Reconectar como gesto político

Reconectar alimento e território é um gesto político. Implica:

defender políticas públicas de regularização fundiária

fortalecer feiras locais e circuitos curtos de comercialização

criar cozinhas de investigação vinculadas às comunidades

registrar saberes sem transformá-los em mercadoria folclórica

reconhecer formalmente as Mestras como detentoras de conhecimento

Mais do que preservar receitas, trata-se de preservar relações.

Conclusão: culinária como campo de disputa

A culinária tradicional não é nostalgia. É resistência. É tecnologia social. É epistemologia territorial.

Discutir alimento, território e direitos da terra é discutir poder.

Discutir Mestras e etarismo é discutir justiça histórica.

Se quisermos enfrentar o apagamento, precisamos deslocar o centro.

Colocar as Mestras no lugar que sempre lhes pertenceu: o de intelectuais da terra, produtoras de conhecimento e guardiãs de sistemas alimentares complexos.

Sem elas, não há continuidade.

Sem território, não há culinária.

Sem reconhecimento, há silêncio.



@charoth10

#Elcocineroloko

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