COMIDA É ESTRATÉGIA: O QUE O BRASIL AINDA NÃO ENTENDEU SOBRE SUA PRÓPRIA FORÇA ALIMENTAR
Fala-se muito em potência cultural, em território criativo, em Bahia como símbolo do Brasil profundo — mas, na prática, o que se vê é a ausência de planejamento estrutural justamente onde a cultura é mais viva. A cultura alimentar, as festas populares, os saberes tradicionais e até o próprio Carnaval, uma das maiores expressões culturais do planeta, vêm sendo conduzidos mais por agendas imediatas e interesses políticos do que por uma visão de futuro.
Não falta riqueza cultural. Falta projeto.
As universidades públicas, que poderiam ser polos de formação conectados ao território, às comunidades tradicionais e aos sistemas alimentares locais, seguem em grande parte presas a modelos distantes da realidade social que as cerca. Formam técnicos, mas raramente formam mediadores culturais. Produzem títulos, mas pouco dialogam com as cozinhas de quintal, com as mestras dos saberes, com os biomas, com os modos de vida que sustentam a identidade alimentar da Bahia.
O resultado é um vazio estratégico perigoso: o estado que é referência simbólica de brasilidade não consegue transformar sua força cultural em política estruturada, nem em desenvolvimento de longo prazo. Até o Carnaval, que poderia ser laboratório de economia criativa, memória e identidade, tem sido reduzido a vitrine de disputa, patrocínio e projeção pessoal, perdendo densidade cultural e sentido coletivo.
Quando cultura vira evento, e não política contínua, o que se perde não é só qualidade — é soberania simbólica.
Enquanto a Espanha estrutura um Plano Internacional para transformar sua gastronomia em política de Estado, o Brasil ainda trata sua cultura alimentar como paisagem — bonita, diversa, potente — mas raramente como estratégia.
Temos um dos maiores patrimônios culinários do mundo, mas ele continua fragmentado entre turismo, agricultura, cultura e assistência social, como se não falássemos da mesma coisa. Falamos. Alimentação é território, é memória, é economia viva, é identidade coletiva.
Se a Espanha aposta em formação, internacionalização e marca-país, o Brasil poderia começar reconhecendo que sua força não está apenas na alta cozinha, mas nas cozinhas de quintal, nas feiras, nos terreiros, nas comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, nos saberes das mestras, nas plantas alimentícias tradicionais, nas farinhas, nos modos de fazer que atravessam gerações. Nosso diferencial não é a padronização — é a biodiversidade cultural e biológica que ainda resiste.
Transformar isso em estratégia exige algumas viradas de chave:
A primeira é formação conectada ao território. Não apenas escolas de hotelaria, mas programas que aproximem jovens cozinheiros dos sistemas alimentares locais, das agricultoras, das guardiãs de sementes, dos modos tradicionais de preparo. Formação que ensine a ler o bioma, não só a empratar.
A segunda é turismo alimentar como experiência cultural, não consumo rápido. O visitante não quer apenas comer bem — quer entender de onde vem a comida, quem faz, qual história carrega. Roteiros de farinha, de dendê, de cacau, de mariscos, de roçados de quintal, de festas tradicionais podem gerar renda sem transformar a cultura em espetáculo vazio.
A terceira é apoio real aos pequenos produtores e cozinheiras tradicionais, que são quem sustenta a diversidade. Sem eles, o discurso vira marketing. Com eles, vira sistema econômico local.
E talvez a mais importante: o Brasil precisa construir um relato comum sobre sua cultura alimentar que não apague diferenças, mas as articule. Amazônia não é Nordeste, que não é Cerrado, que não é Sul — e é justamente essa pluralidade que pode nos colocar no mundo como potência cultural alimentar.
A comida brasileira já é grande. O que falta é o país entender isso como projeto de futuro.
@charoth10

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