BAD BUNNY E A PERDA DA CULTURA ALIMENTAR EM PORTO RICO: DEBÍ TIRAR MÁS FOTOS 🇵🇷✨
Enquanto muitos o celebram apenas como um artista disruptivo ou ícone pop global, sua obra mais recente — tanto o álbum como o curta que o acompanha — revela uma preocupação profunda com as transformações sociais e políticas que atravessam Porto Rico e suas comunidades.
Debí Tirar Más Fotos (“Eu deveria ter tirado mais fotos”) não é apenas um título nostálgico: é uma metáfora para a memória coletiva que corre risco de se perder diante da gentrificação, da colonização cultural e do apagamento das tradições locais.
No curta DeBí TiRAR MáS FOToS, Bad Bunny mostra como padarias tradicionais de Porto Rico podem se tornar espaços gourmetizados e distantes da comunidade. A opção “vegana” no cardápio provoca reflexões sobre memória culinária e ressignificação das tradições.
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Dirigido e co-escrito por Bad Bunny, aquilo que parecia apenas uma expressão de saudade ganha contornos políticos quando um homem percebe que seu bairro mudou, os espaços tradicionais deixaram de ser lugares de vizinhança e passaram a ser enclaves estranhos, muitas vezes inacessíveis à população histórica do lugar.
Esse deslocamento físico é também um deslocamento simbólico: quando padarias, mercados e cozinhas de bairro — guardiãs da cultura alimentar local — são substituídos por espaços gourmet ou serviços desconectados da comunidade, o tecido cultural que sustentava gerações começa a rasgar.
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Para Karla, o que se vê hoje em Porto Rico não é apenas mudança estética: é a perda gradual de práticas alimentares, modos de vida e saberes que foram moldados ao longo de séculos no território.
O deslocamento econômico e social — que inclui aumento do custo de vida, perda de áreas plantadas, predominância do fastfood, exploração turística e transformações nos espaços cotidianos — reverbera na comida, nos encontros, na fala e na memória. Territórios que antes eram “de casa” passam a ser territórios de consumo para visitantes ou plataformas midiáticas.
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Bad Bunny não evita esse debate — ele o incorpora em sua arte e em sua postura pública. O álbum e o curta dialogam com temas como colonização, identidade e resistência cultural, reforçando a ideia de que a música e o cinema podem ser instrumentos de preservação e crítica social, não apenas produtos de entretenimento. E mesmo quando ele alcança plataformas gigantescas — como seu discurso político nos Grammy Awards, em que atacou políticas migratórias e pediu “Ice out”, gerando debates sobre imigração e direitos humanos — sua voz permanece ancorada na experiência de quem vive e pertence a um lugar que luta para continuar existindo sob seus próprios termos.
Assim, Bad Bunny aparece não apenas como um artista de impacto global, mas como um articulador de tensões complexas entre memória e mercado, cotidiano e espetáculo, tradição e transformação — um artista cuja obra nos convida a enxergar o que se perde quando as comidas, os lugares e as histórias de um povo deixam de ser acessíveis aos próprios povos que as criaram.
No curta “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, Bad Bunny não fala só de imagem, nem só de nostalgia. Ele fala de perda. Perda de território, de cotidiano, de pertencimento. Quando a padaria do bairro vira café “artesanal”, com cardápio em inglês e preços que expulsam quem sempre esteve ali, não é modernização — é deslocamento cultural.
Essa sensação não é só leitura de filme. Ela apareceu com força nas minhas conversas com Karla Claudio (@el_matojal), artista porto-riquenha que coordena o projeto @la.recolecta e está em Salvador como residente da Vila Sul. Falando sobre comida, memória e território, Karla trouxe um sentimento recorrente entre pessoas de Porto Rico hoje: a cultura alimentar está sendo lentamente arrancada do chão que a sustenta.
Ela descreve um cenário em que ingredientes tradicionais encarecem, mercados locais desaparecem, e receitas do dia a dia passam a circular mais como experiência estética do que como prática viva. Pratos que nasceram da necessidade, do improviso, da coletividade, reaparecem reembalados — agora como produto gourmet, destino turístico, tendência de restaurante.
É aí que o filme de Bad Bunny encontra a vida real. A “opção vegana” no cardápio, naquela cena, não é sobre o que se come ou deixa de comer. É sobre quem tem poder de redefinir o que é legítimo dentro de uma tradição. Quando a transformação acontece sem diálogo com a comunidade, a mudança não é evolução cultural — é substituição.
O que Karla compartilha ecoa muito além de Porto Rico. É a mesma lógica que transforma cozinhas populares em “conceitos”, que desloca saberes do cotidiano para vitrines, que faz a comida deixar de ser vínculo para virar mercadoria simbólica.
No fundo, estamos falando disso:
quando a comida muda de mãos, o território muda de dono.
E é por isso que esse curta dói tanto — porque ele mostra que a perda da cultura alimentar não acontece de uma vez. Ela acontece aos poucos, quando a gente ainda consegue tirar fotos, mas já não reconhece mais o lugar.
O curta “Debí Tirar Más Fotos” está disponível online, incluindo na própria plataforma oficial do YouTube (como divulgado em reportagens sobre o lançamento do filme) — e pode ser assistido diretamente lá, como parte da divulgação do projeto visual ligado ao álbum de Bad Bunny.
👉 Você pode procurar por ele no YouTube pelo título “Bad Bunny – DeBÍ TiRAR MáS FOToS (Short Film)”, que foi publicado como complemento ao lançamento do álbum e apresenta a direção e atuação de Jacobo Morales.
@charoth10


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