ACESSO AO GÁS É DIREITO, NÃO PRIVILÉGIO: VALORIZANDO A CULTURA ALIMENTAR

Em um país onde cozinhar ainda é ato cotidiano e sagrado, o acesso à energia para alimentar famílias vai além de uma questão técnica: é também uma questão cultural, social e de dignidade humana. 

O programa Gaz para Todos, que pretende beneficiar cerca de 17 milhões de famílias, representa uma oportunidade de enfrentar desigualdades históricas no acesso à energia doméstica — especialmente em territórios onde a cozinha vai além da nutrição imediata, sendo núcleo de memória, identidade e relações comunitárias.

Cozinhar com lenha: território, tradição e desigualdade

Em muitas regiões do Brasil, especialmente no meio rural, em comunidades tradicionais (quilombolas, ribeirinhas, indígenas) e em áreas periféricas urbanas, a lenha ou o carvão vegetal ainda são fontes principais de energia na cozinha. Esse uso não é apenas prático: ele está profundamente enraizado em saberes e modos de viver.

Mapa sociocultural de usos de lenha como energia culinária:

Territórios Quilombolas (Baixo Sul, Recôncavo Baiano, Mata Atlântica): Cozinhas com fogão de chão ou fogão à lenha são locais de transmissão de saberes culinários tradicionais; é ali que se aprende a mexer o vatapá, a moqueca e as farofas mais ancestrais.

Comunidades Ribeirinhas (Amazônia Legal): A lenha é muitas vezes a principal fonte de calor para cozinhar peixes, farinhas e caldos que sustentam frutos da coleta e pesca — um modo de cozinhar que está ligado à própria relação com o rio e o território.

Assentamentos e Pequenas Propriedades Rurais: Em áreas sem infraestrutura energética consolidada, cozinhar com lenha ainda é regra. É nessas cozinhas que fermenta o pão caseiro, que se prepara o café forte e que se preservam receitas passadas de geração em geração.

Periferias Urbanas: Mesmo em áreas urbanas, a falta de gás canalizado ou o custo alto do gás de cozinha leva muitas famílias a manter o uso de fogões improvisados a lenha ou carvão.

Esses modos de cozinhar são frequentemente invisibilizados por políticas públicas que tratam “energia” apenas como acesso técnico, sem considerar o valor cultural dos alimentos e das práticas culinárias locais.

Por que a inclusão energética é urgente?

Embora cozinhar com lenha carregue valores históricos e culturais, o acesso ao gás de cozinha é uma questão de saúde, segurança e equidade:

Saúde respiratória: A fumaça gerada pela queima de lenha em espaços fechados ou pouco ventilados está associada a problemas respiratórios, especialmente entre crianças, gestantes e pessoas idosas.

Segurança doméstica: Cozinhar com lenha expõe famílias a riscos de queimaduras e incêndios acidentais dentro de casa.

Liberdade de tempo: O uso de lenha costuma demandar longos trajetos para coleta, preparo e manutenção do fogo — tempo e esforço que são gastos, em especial, por mulheres e meninas.

Economia e renda: O acesso ao gás encarece proporcionalmente menos do que o esforço dedicado à coleta de lenha ou ao gasto com carvão vegetal; isso pode liberar tempo para outras atividades produtivas ou educativas.

Ainda assim, a eliminação da lenha como fonte de energia não deve significar apagamento cultural. Há saberes culinários associados à lenha que são patrimônios vivos: técnicas de controle de calor, uso de panelas de barro, sabores característicos de pratos feitos no fogão de lenha e sociabilidades geradas em torno da “fogueira” familiar.

Gaz para Todos com olhar cultural: além da técnica

O programa Gaz para Todos tem potencial de transformar a vida de milhões de famílias — não apenas pela comodidade do gás, mas ao garantir que energia não seja privilégio, e sim direito.

Para que essa transformação não apague saberes, é essencial que as políticas associem:

✅ Infraestrutura energética (gás domiciliar ou alternativas sustentáveis)

✅ Programas educacionais sobre nutrição e segurança alimentar

✅ Diálogo com comunidades tradicionais sobre uso de energia e preservação de saberes culinários

✅ Incentivo às culinárias locais — incluindo formas adequadas de valorizar pratos preparados com lenha e com gás

Ao integrar direitos energéticos e cultura alimentar, esse projeto pode ampliar não só o acesso à energia, mas reforçar a conexão das famílias com sua identidade culinária — respeitando tradições, promovendo saúde e garantindo mais dignidade à mesa de milhões de brasileiros.

Conclusão

O acesso ao gás de cozinha não é apenas um item de consumo moderno: é um passo importante para reduzir desigualdades, proteger a saúde, liberar tempo de trabalho não remunerado e fortalecer a autonomia das famílias. Quando políticas públicas dialogam com as culturas alimentares, elas passam a valorizar não só o que se come, mas como e por que se come.

Garantir que 15 milhões de famílias tenham acesso ao gás de cozinha deve ser visto como um avanço — mas um avanço que deve caminhar junto com o respeito por práticas culinárias tradicionais e com políticas que valorizem a alimentação como parte fundamental da vida cultural, social e econômica de um povo.

❌ DEPUTADOS QUE VOTARAM CONTRA O GÁS DO POVO

ADRIANA VENTURA (NOVO‑SP)

GILSON MARQUES (NOVO‑SC)

LUIZ LIMA (NOVO‑RJ)

MARCEL VAN HATTEM (NOVO‑RS)

RICARDO SALLES (NOVO‑SP)

BIA KICIS (PL‑DF)

BIBO NUNES (PL‑RS)

CARLOS JORDY (PL‑RJ)

CHRIS TONIETTO (PL‑RJ)

DANIEL FREITAS (PL‑SC)

DELEGADO PAULO BILYNSKYJ (PL‑SP)

EROS BIONDINI (PL‑MG)

JÚLIA ZANATTA (PL‑SC)

JUNIO AMARAL (PL‑MG)

LUIZ PHILIPPE DE ORLEANS E BRAGANÇA (PL‑SP)

MARCOS POLLON (PL‑MS)

MÁRIO FRIAS (PL‑SP)

MAURICIO MARCON (PL‑RS)

NIKOLAS FERREIRA (PL‑MG)

RICARDO GUIDI (PL‑SC)

RODOLFO NOGUEIRA (PL‑MS)

SANDERSON (PL‑RS)

SARGENTO GONÇALVES (PL‑RN)

ZÉ TROVÃO (PL‑SC)

GUILHERME DERRITE (PP‑SP)

TIÃO MEDEIROS (PP‑PR)

GEOVANIA DE SÁ (PSDB‑SC)

@charoth10

#elcocineroloko

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