A ÚNICA COISA MAIS PODEROSA QUE O ÓDIO É O AMOR. BENITO GIGANTE


No maior palco da música e do espetáculo global — o show do Super Bowl —, uma energia pulsa além da luz e do som. Não é o engenho técnico das torres de alto-falantes, nem os fogos que riscam o céu noturno. É algo mais profundo: a verdade que não se cala, traduzida em ritmo, voz e corpo.

Quando o artista porto-riquenho sobe ao centro do gramado, a atmosfera muda. Não é apenas performance — é resistência. Sua presença ali não foi acidental. É a afirmação visível de culturas que sempre existiram à margem do discurso dominante. Cada batida, cada gesto, cada verso carrega ancestralidade: ritmos que atravessaram oceanos, línguas que se reinventaram e corações que se recusam a ser encolhidos.

Do outro lado, a narrativa oficial de um país ainda guiado por líderes que sussurram — e por vezes gritam — preconceito e exclusão, tenta monopolizar o significado das coisas. Sob a batuta de um supremacista branco que se alimenta do medo e da desconfiança, esse país quis reduzir identidades a estereótipos, rotular povos como “outros”, desconectar latinos da sua própria história e do seu valor.

Mas ali, naquele palco monumental, a arte sorri e recusa subserviência. O artista porto-riquenho não apenas canta — ele desafia. Ele recolhe na palma das mãos tudo aquilo que o ódio tentou dispersar: a alegria que nasce nas ruas, a força dos migrations, a criatividade que brota do encontro entre mundos. Sua música ecoa e faz vibrar algo mais antigo e mais essencial do que qualquer discurso de exclusão: a dignidade humana.

A plateia global explode. Não apenas pela performance técnica — pelos passos calculados, pela voz afinada —, mas pela autenticidade inescapável. Ali não há maquiagem de diplomacia ou neutralidade; há humanidade em carne viva. Uma cultura inteira se projeta para milhões de pessoas que jamais tinham visto — ou ouvido — aquele som pulsando no centro de um dos eventos mais assistidos da Terra.

E é aí que reside o poder.

Não no som.

Não nos efeitos visuais.

Mas no amor que transborda do microfone, da dança e da alma — um amor que rompe fronteiras, que abraça latinos e não latinos, que recoloca orgulhos e histórias no centro da narrativa.

O supremacista pode ter tentado controlar a cena, mas a arte é como água: encontra caminho. E quando a arte fala a língua do coração coletivo, o amor vence, mesmo diante da ignorância e da rejeição.

No fim, a apresentação não foi apenas um show. Foi um ato político de beleza e afirmação — uma lembrança de que, quando o amor se levanta em forma de arte, ele não só rouba a cena: ele reescreve a história.


@charoth10

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