A PRIVATARIA EM SALVADOR E A ENGRENAGEM DA EXCLUSÃO SOCIAL
Aquela medida traumática, numa cidade historicamente excludente, foi apresentada como “organização” do espaço público. Anos depois, o que se vê é o movimento inverso e complementar: a substituição do trabalho popular por um modelo de concessões privadas de larga escala. Sai o trabalhador tradicional, entra o operador empresarial.
O que ocorre hoje na orla não é pontual. É a consolidação de um projeto de cidade no qual o espaço público deixa de ser território de convivência e passa a ser ativo econômico.
Reportagem recente do Bahia Notícias informa a concessão de 1,5 km da orla de Jaguaribe à iniciativa privada, sob gestão da empresa Orla Salvador, ligada ao grupo empresarial conhecido como “Rei da Praia”. O contrato, somado a outras áreas já administradas pelo mesmo grupo, amplia de forma significativa a concentração da gestão de trechos estratégicos do litoral soteropolitano.
Esse processo tem nome conhecido na história brasileira: privataria — quando bens coletivos são transferidos gradualmente à exploração privada sob o discurso de modernização, eficiência e ordenamento.
Não se trata apenas de quiosques ou barracas. Quando longos trechos da orla passam a ser operados por empresas, o que muda não é só a gestão — muda quem pode permanecer e trabalhar ali.
A concentração de áreas sob uma mesma administração cria um domínio quase monopolista sobre espaços que sempre foram marcados pela diversidade de usos, práticas culturais e formas de sustento. Pequenos empreendedores encontram cada vez mais barreiras para se adaptar às novas regras, enquanto trabalhadores historicamente ligados à praia perdem espaço.
Além disso, não há clareza sobre mecanismos efetivos de inclusão ou prioridade para os antigos barraqueiros e moradores que dependem economicamente da orla. Críticas de parlamentares e grupos comunitários apontam que o modelo pode aprofundar desigualdades ao exigir capital, padronização e formalizações que excluem justamente quem sempre ocupou esses territórios.
Não é apenas uma questão de “gestão eficiente”. Concessões extensas e de longo prazo transformam patrimônio público em ativo de mercado, reorientando a lógica da orla: de espaço de uso coletivo para zona de exploração econômica. A praia segue formalmente pública, mas passa a ser socialmente filtrada.
Esse movimento ocorre paralelamente a outros conflitos urbanos recentes — como impasses em áreas costeiras, sombreamento das praias por empreendimentos e o avanço da especulação imobiliária — compondo um cenário de crescente pressão sobre os espaços comuns.
A questão central não é ser contra melhorias ou investimentos. É perguntar:
Melhorias para quem? Investimentos para qual modelo de cidade?
Quando o acesso ao espaço passa a ser mediado pelo consumo, o direito à cidade é substituído pelo poder de compra. E numa cidade marcada por profundas desigualdades sociais e raciais, isso significa restringir, na prática, a presença de parcelas significativas da população.
Resta a pergunta fundamental: qual deve ser o papel do Estado?
Se a atração de investimentos privados é uma escolha de gestão, ela não pode ocorrer à custa da exclusão social. Garantir que trabalhadores tradicionais, moradores e a população em geral continuem usufruindo plenamente da orla não é detalhe — é o que define se a cidade está sendo governada como bem comum ou administrada como portfólio de negócios.
@charoth10
#elcocineroloko

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