A ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA PARA TURISMO DE LUXO AFETA A ALIMENTAÇÃO DOS NATIVOS EM PORTO SEGURO
A reportagem do O Joio e O Trigo, trazida por Julia Dolce João Ambrósio, sobre Porto Seguro (BA) revela algo que vai muito além de um conflito pontual entre moradores e empreendimentos turísticos. O que está em curso em distritos como Trancoso é um processo profundo de substituição de ecossistemas, modos de vida e culturas alimentares por um modelo de ocupação orientado ao turismo de luxo e à valorização imobiliária.
A cena narrada — a artista e indigenista Diana Rodriguez colhendo um guaru na restinga enquanto um segurança questiona sua presença — é simbólica. O que antes era quintal, território de coleta, espaço de pesca e transmissão de saberes, torna-se “área privada”, vigiada, cercada, controlada. A paisagem muda, mas o que se perde não é apenas vegetação: é memória alimentar.
A restinga, ecossistema de transição entre Mata Atlântica e praia, cumpre funções ambientais fundamentais. Protege manguezais, estabiliza dunas, abriga espécies adaptadas a solos arenosos e salinos. Mas, além da função ecológica, há sua dimensão cultural. Ali crescem frutos como o guaru, coletados historicamente por comunidades locais. Ali também se estabelecem relações com o mangue, com a pesca artesanal, com o extrativismo de mariscos e crustáceos.
Quando a especulação imobiliária avança, ela não remove apenas arbustos — ela desloca sistemas alimentares inteiros.
O caso de Trancoso, distrito de Porto Seguro, ilustra um padrão recorrente no litoral brasileiro: a transformação de territórios tradicionalmente habitados por populações locais em vitrines para o consumo turístico. O deck construído sobre o antigo quintal de Diana é metáfora concreta desse processo. Onde antes havia coleta de frutos da restinga, agora há espaço para espreguiçadeiras.
Há também um apagamento simbólico. O diálogo com o segurança — que confunde restinga com caatinga — evidencia a desconexão entre quem ocupa o território para explorá-lo economicamente e quem o conhece como ecossistema vivo. O poder público, segundo a reportagem, ignora tanto o desmatamento quanto o fechamento de acessos a praias, mangues e áreas de coleta. O que deveria ser bem comum transforma-se em mercadoria.
A alimentação é um dos primeiros indicadores desse tipo de ruptura. Diana lista 24 alimentos que fizeram parte de sua infância e que hoje são raros ou inacessíveis. Essa redução da diversidade alimentar não é fruto de “mudança de gosto” ou “modernização natural”. Ela é consequência direta da perda de território e da destruição de ecossistemas. O desaparecimento de um fruto da restinga implica também o desaparecimento de receitas, de práticas de conservação, de memórias afetivas e de vínculos comunitários.
O turismo de luxo, vendido como vetor de desenvolvimento, raramente internaliza os custos sociais e ambientais que produz. Ele eleva o preço da terra, encarece o custo de vida, precariza o acesso à moradia e desloca moradores históricos. Ao mesmo tempo, cria uma paisagem artificializada, muitas vezes desconectada da cultura alimentar local que originalmente tornava o território singular.
Há uma contradição evidente: o marketing turístico se apoia na ideia de “paraíso natural”, “autenticidade” e “cultura local”, mas o próprio modelo que sustenta essa indústria corrói as bases ecológicas e culturais que lhe dão sentido.
A questão central não é ser contra o turismo. É questionar qual turismo, para quem e a que custo.
Quando o acesso a mangues e restingas é bloqueado, quando a coleta tradicional é impedida por seguranças privados, quando a biodiversidade alimentar diminui, estamos diante de um processo de expropriação alimentar. Trata-se de uma forma contemporânea de cercamento: não apenas da terra, mas da possibilidade de se alimentar a partir do território.
O caso de Trancoso evidencia como a especulação imobiliária pode operar como força de homogeneização cultural. No lugar da diversidade alimentar da restinga, instala-se a padronização de cardápios voltados ao visitante de alto poder aquisitivo. No lugar do guaru, da pesca no mangue e do doce caseiro, surgem restaurantes e condomínios que pouco dialogam com os sistemas alimentares tradicionais.
Defender a restinga, portanto, não é apenas defender um ecossistema. É defender soberania alimentar, memória coletiva e direito ao território.
Se o poder público ignora esse apagamento, resta à sociedade civil, às comunidades locais e à imprensa independente tensionar esse modelo. Porque, quando um deck substitui um quintal de restinga, não estamos falando apenas de madeira sobre areia. Estamos falando da substituição de um modo de vida por outro — e nem sempre o novo é mais justo, mais sustentável ou mais humano.
@charoth10
#Elcocineroloko
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