ZA’ATAR E A POLÍTICA DA CULTURA ALIMENTAR NO LEVANTE

O site JSTOR Daily traz uma importante reflexão sobre o za’atar, um dos elementos centrais da cultura alimentar do Oriente Médio e, em especial, do Levante. 

Za’atar: Dos Textos Antigos ao Conflito Moderno

Mais do que uma erva ou uma mistura de especiarias, o za’atar é um marcador profundo de pertencimento, memória coletiva e relação com o território.

Alguns sabores nos levam de volta para casa porque carregam histórias, gestos e paisagens. No Levante, o sabor levemente amargo e picante do za’atar atravessa séculos como símbolo de identidade cultural e resistência cotidiana. Ele aparece em livros de culinária do século X, está presente nas práticas comunitárias de colheita e preparo dos alimentos e habita a oralidade, os cantos e as memórias familiares. Comer za’atar é também lembrar de quem colheu, de quem ensinou a reconhecer a planta no campo e de como ela chega à mesa.

Ao longo do tempo, o próprio nome da planta se transformou à medida que cruzava línguas, impérios e fronteiras, funcionando como um verdadeiro passaporte cultural. Foi chamada de orégano sírio, tomilho libanês, hissopo bíblico ou, na classificação científica ocidental, Origanum syriacum. Essas múltiplas nomeações revelam não apenas variações botânicas, mas diferentes formas de se relacionar com o alimento, o território e o saber.

Hoje, o za’atar seco e moído é conhecido internacionalmente como o principal ingrediente da mistura que simboliza a culinária palestina. Ele acompanha o pão, o azeite, os cafés da manhã e as refeições compartilhadas, estruturando uma forma de comer que é coletiva, simples e profundamente ligada à terra. Trata-se de uma planta perene que cresce espontaneamente nos solos pedregosos do Mediterrâneo Oriental e da Península do Sinai, alcançando cerca de um metro de altura, com folhas aveludadas que brotam de caules quadrangulares e peludos. Seu crescimento livre sempre esteve integrado ao ritmo das comunidades humanas e ao equilíbrio do ecossistema local.

No entanto, essa relação ancestral entre alimento, território e comunidade foi rompida quando o za’atar passou a ser tratado como um problema legal. Em 1977, Israel incluiu a planta na lista de espécies protegidas, tornando-a a primeira planta comestível a receber esse status no país. A proibição, justificada por preocupações ambientais e pelo excesso de colheita, transformou o za’atar em um paradoxo: uma planta tradicionalmente colhida para alimentar famílias passou a ser considerada mercadoria ilegal. Ao mesmo tempo, leis incentivaram sua domesticação em moldes industriais e a expropriação das terras onde ela crescia, deslocando comunidades e quebrando relações históricas de cuidado mútuo entre pessoas, plantas e paisagem.

Esse processo revela como a cultura alimentar pode ser atravessada por disputas políticas. Quando um alimento é retirado de seu contexto social e territorial, não se perde apenas um ingrediente, mas um sistema inteiro de conhecimento, transmissão e vida. O za’atar, antes parte do cotidiano alimentar, torna-se um objeto de controle, mercado e poder.

Hoje, o za’atar está no centro de um conflito maior. De um lado, permanece como símbolo de pertencimento, memória e herança cultural, transmitido pelas mãos que colhem, secam, moem e compartilham. De outro, tornou-se uma mercadoria politizada, arrancada de seu território como estratégia de controle sobre a terra, os corpos e as culturas alimentares. Sua história evidencia que a comida nunca é neutra: ela expressa relações de poder, resistência e continuidade da vida.

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https://daily.jstor.org/zaatar-from-ancient-texts-to-modern-conflict/



@charoth10

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