SHUPÍ DE AMENDOIM: MEMÓRIA, ESCUTA E CONTINUIDADE
No CosmoAngola 2026, tive a oportunidade de criar a partir do amendoim, grão ancestral que atravessa territórios, corpos e tempos, sustentando modos de vida, memórias e economias populares. Desse encontro nasce o Shupí de Amendoim — não como reinvenção ou releitura livre do abarà, mas como um gesto consciente de escuta, cuidado e diálogo com a tradição.
Neste ano, na oficina que conduzi, busquei ressaltar a importância da memória não apenas como elemento da culinária, mas como potência dialógica: capaz de abrir caminhos, tensionar silêncios e produzir sentido. Mais do que apresentar um preparo, o interesse foi criar espaço para a fala.
Trazer as Mestras da Culinária do Tenondé para o centro do evento foi uma escolha política. Dar voz as verdadeiras protagonistas do processo.
Romper com os limites impostos pelo discurso técnico ou acadêmico significou permitir que elas expressassem, com suas próprias palavras, a relação viva que mantêm com o alimento, o território e o tempo. A comida, ali, deixou de ser objeto e voltou a ser linguagem.
É desse lugar que o amendoim se apresenta — não como ingrediente isolado, mas como grão que carrega história, trabalho e permanência.
O Shupí de Amendoim nasce desse encontro: inspirado no abarà, não para ocupá-lo ou substituí-lo, mas para caminhar ao seu lado, afirmando continuidade.
Trata-se de um preparo de base popular, levemente picante, no qual a criação não se impõe sobre a memória, mas se constrói com ela. Aqui, autoria não significa ruptura, e sim responsabilidade: reconhecer que todo gesto culinário carrega vozes anteriores e que cozinhar também é uma forma de escutar o mundo.
O amendoim, originário da América do Sul, é cultivado por povos indígenas há milênios. No Brasil, especialmente no Nordeste, integra a agricultura familiar e sustenta economias locais mesmo diante das adversidades climáticas do semiárido. Na Bahia, esse grão carrega uma história profunda de trabalho, resistência e continuidade.
O estado lidera a produção de amendoim no Nordeste, concentrando cerca de 80% da área cultivada da região, com forte presença no Recôncavo e expansão para áreas do cerrado, como Barreiras, e territórios do semiárido, inclusive em regiões vizinhas do Ceará. Cultivares adaptadas à seca, como a BR 1, reforçam sua importância em solos pobres e contextos de escassez.
Durante o período colonial, o amendoim foi levado do Brasil para a África nos navios negreiros, carregando consigo saberes indígenas — entre eles, o cultivo tradicionalmente realizado por mulheres, prática que persistiu até o século XIX em regiões como Congo e Senegal. Na Bahia, esse grão se enraizou definitivamente na culinária afro-brasileira, presente em preparos como o vatapá, nos doces populares e nas cozinhas que sustentam festas, rituais e a vida cotidiana.
Essa herança conecta o amendoim às oferendas do candomblé, às cozinhas quilombolas e às práticas alimentares que seguem afirmando identidade. Registros históricos, como os de Gabriel Soares de Sousa, indicam que, entre povos indígenas baianos, o amendoim era semeado exclusivamente por mulheres, sinal de que o cultivo sempre esteve ligado a dimensões simbólicas, espirituais e sociais.
O Shupí de Amendoim nasce desse chão compartilhado. Não busca substituir o abarà, mas reafirmar que tradição não é imobilidade, e sim continuidade viva — atualizada pela escuta, pela fala e pela presença de quem mantém o alimento em relação com o território, a memória e o tempo.
Receita – Shupí de Amendoim
Ingredientes
1 kg de amendoim cru, sem casca
500 g de flocão de milho
3 cebolas grandes
Gengibre a gosto
4 dentes de alho
1 colher de sopa de açúcar
Pimenta rabo de macaco defumada
Sal a gosto
Modo de fazer
Deixe os amendoins de molho em água quente, descasque e reserve.
À parte, bata as cebolas, o alho, o gengibre e os demais ingredientes com pouca água, formando um creme.
Bata os amendoins até obter uma massa rústica, não totalmente lisa, e incorpore ao creme de cebolas. Bata bem para aerar.
Acrescente o flocão de milho, ajuste o sal e embale em folhas de bananeira, formando pequenas trouxinhas.
Cozinhe no vapor até firmar.
Sirva com um vinagrete picante de banana-da-terra frita, reforçando o diálogo entre grãos, folhas, fogo e memória.
@chroth10
#Elcocineroloko

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