RECONSTRUIR, REGISTRAR, COZINHAR O QUE SOMOS










“A culinária Payayá é herdeira de um povo nômade do sertão, que aprendeu a cozinhar com o tempo da terra, a mandioca como base e o coletivo como sentido.”

Retomar a alimentação Payayá é retomar as raízes vivas da nossa cultura.

Não como nostalgia, mas como reconstrução consciente de um sistema alimentar que foi interrompido pela violência colonial, pela perda de território e pela dispersão forçada do nosso povo.

Somos Payayás das Jacobinas.

Povos originários do território hoje chamado Piemonte da Diamantina — região de transição entre a Chapada Diamantina, o sertão e a Caatinga.

Esse território moldou nossa forma de viver, de caminhar e de nos alimentar.

Nossa comida nasce do sertão.

É comida de mobilidade.

É comida de adaptação ao bioma da Caatinga.

Uma culinária pensada para resistir à seca, ao deslocamento e à escassez —

não para o acúmulo, não para o excesso, não para a mercadoria.

Antes da chegada dos colonizadores europeus, éramos um povo nômade.

Caminhávamos em busca dos recursos naturais, lendo a terra, respeitando seus ciclos.

Essa forma de viver construiu uma cozinha do essencial.

Nossa alimentação se baseava em alimentos duráveis, raízes profundas e técnicas ancestrais:

a mandioca como eixo civilizatório,

a secagem, a torra, a fermentação como tecnologias do tempo,

preparações simples, de baixo volume e alta energia.

Beiju seco, puba, paçoca, pirão, massas moldadas no fogo.

Comidas de caminho, não de estoque.

Comidas que sustentam o corpo e a memória.

Nossa relação com a natureza nunca foi de exploração, mas de equilíbrio.

Alimentar-se sempre significou manter a harmonia entre os seres vivos e o território.

Por isso, nossa cozinha integra plantas alimentícias tradicionais, frutos nativos como o umbu, o licuri, o maracujá-do-mato, e respeita o tempo da terra — não o relógio.

Para o povo Payayá, a comida nunca esteve separada da cosmologia.

Comer é um gesto espiritual.

Cozinhar é um ato de cuidado com o mundo.

A colonização rompeu esse sistema alimentar.

Fomos escravizados, expulsos de nossas terras, dispersos.

Perdemos roçados, fomos impedidos de caçar e coletar, nos impuseram novos hábitos e tentaram substituir a mandioca por alimentos coloniais.

Nossa culinária chegou até hoje fragmentada —

mas não foi apagada.

Ela sobreviveu nos gestos,

nos quintais,

nas técnicas,

na culinária sertaneja popular que carrega traços indígenas sem o devido reconhecimento.

Hoje, estamos espalhados pela Bahia, por São Paulo, em diálogo com outros povos originários.

Essa dispersão também nos ensinou a adaptar nossa alimentação a novos territórios, sem perder o que nos sustenta:

a mandioca,

o fogo,

o coletivo.

Nossa alimentação não está congelada no passado.

Ela se reorganiza, se atualiza, se fortalece.

A luta contemporânea do povo Payayá por território, educação e reconhecimento cultural é também uma luta pela retomada da nossa alimentação ancestral.

Mutirões, festas do plantar, cozinhas coletivas e rituais alimentares são espaços políticos de reconstrução da nossa identidade.

Cozinhar hoje, no território Payayá, é um ato de reparação histórica.

Registrar nossa cultura alimentar é garantir que ela não volte a ser silenciada.

Reconstruir nossa cozinha é reconstruir nosso povo.

A alimentação Payayá é territorial.

É ancestral e adaptativa.

Está ligada ao nomadismo e à Caatinga.

Valoriza o coletivo e a partilha.

Foi violentamente interrompida, mas nunca destruída.

Hoje, ela retorna como prática de resistência cultural, de afirmação identitária e de futuro.

A culinária Payayá é herdeira de um povo nômade do sertão, que aprendeu a cozinhar com o tempo da terra, a mandioca como base e o coletivo como sentido.

Seguimos retomando.

Seguimos registrando.

Seguimos cozinhando quem somos.


@charoth10


#Elcoconeroloko


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