O Mito do Eterno Retorno e a Romã

Perséfone é filha de Deméter (Ceres para os romanos), deusa da agricultura, das colheitas e da fertilidade da terra, que personifica a própria capacidade do solo para gerar vida. Enquanto jovem deusa associada à vegetação, Perséfone representa o princípio do crescimento. 

Segundo o mito, enquanto colhia flores (talvez violetas) num prado, Perséfone foi raptada por Hades, senhor do mundo subterrâneo, e seu tio. Este rapto marca uma ruptura violenta da ordem natural: a jovem deusa é retirada da superfície da terra e conduzida ao reino dos mortos, sem o conhecimento ou consentimento de Deméter. A ausência da filha mergulha Deméter num luto profundo. Na sua dor, a deusa abandona as suas funções, e a terra torna-se estéril: os campos deixam de produzir, as sementes não germinam. 

Perante a quebra da ordem cósmica, Zeus intervém e determina que Perséfone deve regressar à superfície. No entanto, antes de abandonar o submundo, Perséfone consumiu sementes de romã. Este gesto foi decisivo, pois, na mitologia grega, comer no Mundo dos Mortos, cria um vínculo irreversível com esse reino. Como consequência, estabelece-se um compromisso: Perséfone passará parte do ano com Deméter, no Mundo dos Vivos, e parte do ano com Hades, como rainha do submundo. Este movimento regular, repetido ano após ano, constitui o chamado mito do eterno retorno.

A romã desempenha aqui um papel simbólico central. Fruto de muitas sementes, é, simultaneamente, símbolo de fertilidade, abundância, sexualidade e vida, mas também de morte e de ligação ao mundo subterrâneo. Ao comer as sementes de romã, Perséfone deixa de ser apenas a filha de Deméter e torna-se uma figura dupla: deusa da vegetação e rainha dos mortos. O mito exprime, assim, uma passagem irreversível da infância à maturidade e da superfície à profundidade da terra.

A alternância da presença e ausência de Perséfone explica o Ciclo das Estações. Quando a deusa regressa à superfície e se reúne com Deméter, a terra reencontra a sua fertilidade: surgem a Primavera e o Verão, as plantas crescem, florescem e dão fruto. Quando Perséfone desce novamente ao submundo, Deméter entra em luto e a terra perde o seu vigor: chegam o Outono e o Inverno, marcados pelo declínio da vegetação e pelo aparente adormecimento ou morte da natureza. As estações não são castigos divinos, mas fases necessárias de um ciclo vital contínuo.

Para além da explicação agrícola e natural, o mito do eterno retorno de Perséfone transmite uma visão profunda do mundo antigo, baseada na ideia de que a vida nasce da morte e que a renovação só é possível através da alternância. Nada desaparece definitivamente, mas tudo retorna, transformado. Por isso, Perséfone encarna, simultaneamente, a promessa da Primavera e a realidade do mundo subterrâneo, unindo num só corpo os domínios da vida e da morte. Esta dimensão simbólica esteve no centro dos Mistérios de Elêusis, rituais que prometiam aos iniciados a esperança de renovação e continuidade para além da morte.



Luíz Mendonça de Carvalho

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