CULTURA ALIMENTAR BANTU NO BRASIL COLONIAL: CALUNDUS, PLANTAS ALIMENTÍCIAS TRADICIONAIS E PRÁTICAS CORPORAIS
A imagem de Zacharias Wagner registra mais do que um momento de lazer permitido: ela revela um sistema cultural em funcionamento. Dança, música, corpo em movimento e sociabilidade coletiva aparecem articulados a um tempo livre conquistado, ainda que precariamente, dentro do regime colonial. A expansão da mineração aurífera no século XVII, mais do que qualquer produção agrícola de exportação, ampliou a circulação de renda, favoreceu o surgimento de uma incipiente classe média urbana e de uma elite abastada, criando novas demandas por entretenimento, festividades públicas e práticas culturais — espaços nos quais populações africanas e afrodescendentes também se fizeram presentes, negociando visibilidade, sobrevivência e continuidade cultural.
É nesse contexto que se inscreve a presença massiva dos povos Bantu no Brasil.
O universo Bantu e a centralidade da alimentação
Os sacerdotes e sacerdotisas dos povos Bantu trazidos para o Brasil como pessoas escravizadas entre os séculos XVI, XVII e XVIII provinham majoritariamente das regiões de Cabinda e Benguela, abrangendo povos Bakongo (Kongo/Congo), Lundu, entre outros grupos da atual Angola. Eram homens e mulheres iniciados em sistemas religiosos complexos, praticantes de tradições como o Ilundu e o Nkalundu, nas quais corpo, palavra, planta, alimento e território constituíam um único campo espiritual e político.
Na cosmopercepção Bantu, comer é um ato espiritual, e a alimentação está diretamente ligada à saúde, à ancestralidade e à circulação da força vital. As plantas alimentícias não se separam das plantas medicinais: folhas, raízes, sementes e frutos alimentam o corpo, curam desequilíbrios, protegem contra males físicos e espirituais e sustentam a vida coletiva.
Bahia do século XVII: demografia, roça e resistência
Na Bahia colonial, os africanos de origem Bantu não apenas constituíam a maioria da população escravizada, como também formavam grande parte da população negra livre, especialmente em Salvador. Essa presença demográfica expressiva fez com que práticas culturais, alimentares e linguísticas Bantu se tornassem estruturantes da vida urbana e rural.
Apesar da violência do sistema escravista, esses povos recriaram suas práticas por meio de irmandades religiosas, como a de Nossa Senhora do Rosário, que funcionavam, na prática, como associações étnico-culturais. Nelas, mantinham-se o culto aos ancestrais, a musicalidade, a dança, a comida coletiva e o uso ritual das plantas.
A roça, o quintal e a cozinha eram espaços centrais de resistência. A cultura alimentar Bantu se adaptou aos ingredientes locais, mas preservou sua lógica: comida de sustança, de força, de partilha e de memória.
Calundus: religião, comida e organização comunitária
No Brasil colonial, sacerdotes e sacerdotisas Bantu passaram a ser conhecidos como Kalunduzeiros ou Calunduzeiros. O Calundu não era apenas um sistema ritual, mas um complexo civilizatório que articulava:
cura e práticas terapêuticas;
uso ritual e alimentar das plantas;
música, dança e transe;
luta e defesa corporal;
organização comunitária e redistribuição de alimentos.
As plantas alimentícias tradicionais ocupavam lugar central nesses sistemas. Espécies como inhame, mandioca, milho, feijões, taioba, caruru, quiabo, folhas amargas, amendoim e dendê eram alimentos cotidianos e, ao mesmo tempo, portadores de força espiritual. Comer era também reconstituir a África no prato.
A partir dessas práticas, organizaram-se diferentes Calundus:
Calundu Colonial, mais disperso e ainda hoje existente de forma independente;
Calundu de Angola, estruturado no Quilombo Angola Jongo (Palmares), onde espiritualidade, roça coletiva, preparo dos alimentos e defesa do território formavam um mesmo sistema;
Calundu de Saravá, surgido na região de Campos dos Goytacazes (RJ).
Capoeira, comida e corpo ritual
Nesses espaços, a capoeira emerge como linguagem corporal Bantu: não apenas luta, mas rito em movimento, treinamento de resistência, estratégia de defesa e expressão espiritual. A ginga dialoga com o toque dos tambores, com o transe e com a circulação da energia vital.
Esse corpo em movimento é sustentado por uma alimentação específica: caldos, raízes, angu, folhas amargas, bebidas fermentadas e comidas de força. Capoeira, comida e culto formam um sistema integrado de proteção coletiva, onde o corpo bem alimentado é também corpo preparado para resistir.
Das tradições Bantu às religiões urbanas
Dos Calundus originários surgiram tradições como a Milonga e a Kabula.
Da Milonga nasceu o Kandombe, e deste se estruturou o Candomblé, que preservou o uso ritual e alimentar das folhas (ewé, insabas) como fundamento da vida.
Da Kabula derivaram diversas Cabulas, das quais emergiu a Makumba, profundamente ligada aos mercados, às encruzilhadas, à comida de rua, aos quintais e aos saberes populares urbanos.
Por volta de 1835, no Rio de Janeiro, da fusão entre a Makumba de matriz Bantu e práticas dos cultos Nagô-Malês, surge a Macumba Carioca. Essa tradição dialogava intensamente com a cultura alimentar urbana: bebidas fermentadas, comidas compartilhadas, folhas de proteção, práticas corporais e cozinhas populares.
As zungus — casas de angu administradas por mulheres negras — tornaram-se verdadeiros centros de resistência cultural no século XIX. Ali, a comida alimentava corpos, sustentava redes sociais e preservava identidades.
Umbandas e apagamentos
A Macumba Carioca serviria de base para as Umbandas Populares do século XX, especialmente a chamada Umbanda Branca de Demanda, fundada em 15 de novembro de 1908. Embora marcada por processos de embranquecimento simbólico, essa tradição permanece sustentada — muitas vezes de forma invisibilizada — pelos saberes Bantu, sobretudo no uso das plantas, da comida ritual, do corpo, da dança e da oralidade.
Cultura alimentar como tecnologia de vida
A documentação direta sobre o uso das plantas alimentícias pelos povos Bantu no século XVII é escassa. Ainda assim, é possível reconstruir esse universo a partir da agricultura tradicional centro-africana e de suas permanências no Brasil.
Base alimentar e plantas fundamentais
Cereais: milho, sorgo, milheto, arroz
Raízes e tubérculos: mandioca, inhame, batata-doce
Leguminosas: feijões diversos, amendoim
Verduras e folhas: quiabo, taioba, folhas amargas
Gorduras e condimentos: dendê, pimentas, ervas
O angu, feito de milho ou mandioca, tornou-se prato central da população negra urbana e rural, símbolo de resistência, partilha e identidade.
Conclusão
A história dos povos Bantu no Brasil não pode ser compreendida apenas pela religião formal. Ela se estrutura na cultura alimentar, na capoeira, nos quintais, nas folhas, nas cozinhas coletivas e nas redes de cuidado. Esses elementos garantiram a sobrevivência física, espiritual e cultural de um povo que transformou a dor em tecnologia de vida, deixando marcas profundas e ainda pulsantes na formação do Brasil.
Para investigar mais, sugiro:
· Consultar especialistas acadêmicos em estudos Bantu no Brasil, como os trabalhos dos professores Luís Nicolau Parés (UFBA) ou Robert Slenes (Unicamp).
· Explorar etnografias e histórias orais de comunidades de terreiros de Candombe Angola ou de tradições de congada no Recôncavo Baiano, onde vestígios linguísticos e rituais podem ter sido preservados.
· Analisar documentos primários como registros de irmandades, processos da Inquisição ou listas de embarque de navios negreiros (onde nomes étnicos às vezes eram anotados).
#Elcocineroloko
@charoth10

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