COSMOLOGIA PAYAYÁ, TERRA E CULINÁRIA COMO ATO DE RESISTÊNCIA


O termo Payayá, associado ao “Yby” — terra, chão, raiz — expressa o enraizamento não como imobilidade, mas como movimento de resistência, luta e pertencimento profundo ao território. Enraizar-se, para o povo Payayá, é manter viva a relação entre corpo, solo, memória e tempo, mesmo diante dos processos históricos de violência, expulsão e apagamento.

Esse enraizamento se manifesta de forma concreta no saber-fazer ancestral, especialmente nas práticas alimentares. O fogo — materializado no forno a lenha — não é apenas uma técnica, mas um elemento transformador e ritual, capaz de converter a mandioca em alimento, o trabalho em partilha e o cotidiano em gesto espiritual. O sabor carrega ancestralidade porque nasce de um processo que respeita o tempo da terra e das pessoas.

Territorialidade e Casas de Farinha

As casas de farinha são marcos centrais da identidade Payayá. Elas não funcionam apenas como espaços produtivos, mas como territórios simbólicos, onde se transmitem conhecimentos, se fortalecem vínculos comunitários e se reafirma a presença indígena no território. Pesquisas realizadas no povoado de Jurema de Pedro Leite, em São Gabriel (BA) demonstram que esses espaços estruturam a vida social, econômica e espiritual da comunidade, sendo verdadeiros centros de memória viva.

A casa de farinha é lugar de mutirão, de conversa, de silêncio respeitoso e de aprendizado intergeracional. Nela, o alimento deixa de ser mercadoria e se afirma como expressão de pertencimento territorial.

Sustentabilidade como Princípio Ancestral

A produção alimentar Payayá se ancora em práticas orgânicas, limpas e não predatórias, sem uso de insumos químicos, promovendo saúde, equilíbrio ambiental e qualidade de vida. Mais do que um conceito moderno de sustentabilidade, trata-se de um princípio ancestral: produzir sem adoecer a terra, porque adoecer a terra é adoecer a si mesmo.

Além disso, essas práticas atuam como geradoras de renda comunitária, sem romper os ciclos naturais nem submeter o alimento à lógica da exploração intensiva.

Terra, Espírito e Cura

Nos relatos orais e nas práticas conduzidas por lideranças espirituais, como o Cacique Juvenal Payayá, aparecem com força alguns princípios fundamentais:

A terra alimenta porque é respeitada, não dominada.

O alimento carrega espírito, exigindo cuidado no plantio, no preparo e na partilha.

Desterritorializar é adoecer, pois rompe o ciclo entre corpo, solo e memória.

A comida, nesse contexto, não é apenas nutrição física, mas cura, fortalecimento e recomposição do coletivo.

Culinária como Cosmologia Viva

Mais do que um sistema fechado de crenças, a Cosmologia Payayá se expressa nos gestos cotidianos:

no mutirão,

no tempo certo de plantar,

no silêncio que antecede a colheita,

na comida preparada para sustentar o corpo e o espírito da comunidade.

O alimento não é mercadoria.

É elo.

Elo entre passado, presente e futuro.

Elo entre quem planta, quem prepara e quem partilha.

Linha de Atuação na Culinária

Pensar uma linha de atuação culinária a partir da Cosmologia Payayá implica assumir a cozinha como:

prática política de re-territorialização;

ferramenta de transmissão de saberes ancestrais;

espaço de cura coletiva e fortalecimento comunitário;

linguagem viva de resistência indígena.

Essa culinária não busca o espetáculo, mas o sentido. Não responde ao mercado, mas ao território. Não se orienta pela produtividade, e sim pelo equilíbrio entre vida, memória e futuro.

Seguimos em caminhada, aprendendo com o território Payayá e com aqueles que, todos os dias, o mantêm vivo.


🌱 Mutirão Payayá – Tempo de Plantar

📍 Utinga, Chapada Diamantina (BA)

📅 12 a 22 de fevereiro

O Mutirão Payayá – Tempo de Plantar acontece no território ancestral Payayá, em Utinga, na Chapada Diamantina, reunindo comunidades, apoiadores e organizações parceiras em uma ação coletiva de cuidado com a terra, fortalecimento cultural e defesa do território.

Durante os dias do mutirão, serão realizadas diversas atividades, entre elas:

• Plantio de árvores, reafirmando o compromisso com a regeneração dos biomas locais

• Rodas de diálogo, promovendo escuta, troca de saberes e reflexão coletiva

• Imersão na cultura e nos saberes Payayá, conectando cosmologia, território e modos de vida


• Atividades lúdicas e místicas, fortalecendo os vínculos espirituais e comunitários com a terra

O mutirão é uma convocação ao tempo certo de plantar — não apenas árvores, mas também consciência, memória, cultura alimentar e futuro. Uma ação que integra cuidado ambiental, espiritualidade, educação popular e resistência frente às ameaças aos territórios originários.

🌿 Cuidar da terra é cuidar da vida.

🌿 Tempo de plantar, tempo de proteger.

@charoth10


#elcocineroloko

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