A MEDIDA DO SANTO

Por Nelson Varón Cadena 

Nenhum de vocês, seguidores desta página, viu alguma vez uma fita original do Senhor do Bonfim, nem mesmo em fotografia, muito menos em museus, ou, em alfarrábios de família. E se alguém viu me conte. Há mais de quinze anos me esforço em encontrar um exemplar que seja, não me conformo que as fitas da devoção do orago tenham desaparecido sem deixar vestígios. 

É um mistério o seu sumiço. Já segui muita pista falsa, até o museu de Petrópolis me foi indicado, não tinha fundamento. Me indicaram o museu do Instituto Feminino. Pista falsa. Vi uma similar, de 1823, com imagem do menino Jesus, ou, São João, não consegui identificar direito, em registro de abandono de uma criança na Roda dos Expostos, no arquivo da Santa Casa de Misericórdia da Bahia. 

Originalmente chamadas de medidas de santo, em função de seu cumprimento de 47 cm, o correspondente à medida do braço direito da imagem do Senhor do Bonfim, eram confeccionadas com largura entre 5 e 7 cm e usadas penduradas no pescoço, ou, em volta do chapéu, indumentária do dia a dia dos baianos e em tempos de festa imprescindível. 

Fabricadas em seda, ou, cetim, com impressão da imagem do santo em alto relevo e costurada com fios banhados em ouro, representavam uma razoável receita para os cofres da irmandade. A do Senhor do Bonfim, especificamente, já era comercializada desde 1792, segundo os registros existentes (encontrados num livro termo de compromisso por Luiz Geraldo Urpia Freire de Carvalho), provavelmente antes disso, a conferir no futuro.

A questão é saber se a medida de santo do Senhor do Bonfim foi a primeira, já que sabemos que não foi a única. É possível. Os fabricantes e distribuidores das medidas de santo anunciavam nos jornais do século XIX a sua venda com imagens do Senhor do Bonfim, mas, também de Nossa Senhora das Candeias, São Gonçalo do Amarante, Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Purificação, Nossa Senhora da Luz, Nossa Senhora dos Mares de Amaralina, Santo Antônio da Barra. 

Praticamente todas as irmandades e confrarias da Bahia adotaram as medidas de santo e, como já dito, a sua receita cobria parte dos custos da festa. (Nelson Cadena)

Foto: Vendedores de fitas do Bonfim, em tamanho e material diferente das originais, embora mais largas que as atuais, na Foto de Pierre Verger, 1959/IPHAN.


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