VOGUE SENDO A VOGUE: QUANDO A GASTRONOMIA VIRA LABORATÓRIO DE EXOTIZAÇÃO
A nova coluna de Rosa Moraes surge com a ambição de mapear “as mulheres da gastronomia brasileira”. Mas o que se apresenta é um mapa imaginário, cuidadosamente recortado para caber no horizonte social da própria revista. Um Brasil gourmetizado, higienizado e limitado ao eixo das profissionais já legitimadas pelo capital econômico e simbólico.
Em outras palavras: não é um panorama, é um condomínio.
O texto reivindica diversidade, mas entrega mais do mesmo: mulheres de classe média alta, brancas, cosmopolitas, falando de liderança, equipes, empreendedorismo e multitarefas — a cartilha perfeita da feminilidade neoliberal, na qual o acúmulo de funções é apresentado como empoderamento, quando na verdade é sobrecarga romantizada.
E, como em toda narrativa que se pretende representativa mas teme encarar o país real, a solução editorial é sempre a mesma: adicionar uma mulher indígena à equação. Não como protagonista, mas como elemento tropicalista — a “pitada de brasilidade” que legitima um texto incapaz de enfrentar a diversidade estrutural do Brasil. A indígena aparece como selo de autenticidade, não como sujeito político.
É a diversidade ornamental.
Faltam, portanto, as mulheres que realmente sustentam a culinária brasileira:
— as cozinheiras populares que operam fora do radar midiático;
— as mestras quilombolas e ribeirinhas que guardam sistemas alimentares inteiros;
— as trabalhadoras precarizadas que carregam o setor, mas nunca chegam às páginas da Vogue;
— as mulheres negras que moldaram a cozinha nacional e seguem sendo relegadas ao rodapé das narrativas oficiais.
Não é apenas omissão — é reprodução de hierarquias.
Ao invisibilizar essas mulheres, a matéria reforça a lógica que transforma a culinária em commodity cultural e apaga a história coletiva em favor de trajetórias individuais palatáveis ao mercado.
A pergunta jornalística que fica é simples: qual Brasil interessa narrar?
E a resposta, pelo que se vê, é o Brasil da superfície — aquele que se encaixa na estética do lifestyle, não o da complexidade sociocultural que estrutura o nosso sistema alimentar.
A coluna não erra por falta de boas histórias. Erra porque insiste em recusar as histórias que realmente explicam o país. Erra quando confunde representatividade com curadoria seletiva. E erra, sobretudo, quando transforma a diversidade em adereço editorial.
É a velha máxima: quando a narrativa não cabe no mundo, o problema não é o mundo — é a narrativa.
Leia a matéria:
Mulheres do Brasil: um panorama de cozinhas e negócios gastronômicos liderados por elas
Em nova coluna, Rosa Moraes mapeia algumas de muitas das mulheres que lideram cozinhas e negócios gastronômicos no Brasil, entre chefs, confeiteiras e empreendedoras.
Há tempos que tenho vontade de escrever sobre as mulheres da gastronomia brasileira, mas adiei algumas vezes por querer encontrar um fio condutor entre o trabalho de uma e outra que justificasse a pauta - e é muito difícil relacionar tamanha diversidade de olhares, experiências, histórias e estilos. Até que me dei conta, nesse quase-finalzinho de ano, que o fio condutor sempre esteve bem na frente do meu nariz: são elas mesmas.
Das jovens que já mostram um talento e profissionalismo raros, fazendo as próprias regras e liderando times com uma pegada mais feminina, às que já são chefs, empresárias, mães e até avós - tudo ao mesmo tempo e agora - e encontraram seus próprios caminhos para poder se dedicar a todos esses papéis, sem abrir mão de nada.
Sabemos o tamanho da sobrecarga que é imposta às mulheres na busca por equilibrar profissão, vida familiar, afazeres do dia a dia e, quiçá, sonhos.
E essas mulheres ainda escolheram trabalhar com gastronomia, que é uma área que exige esforço extra, com jornadas estendidas e muitas vezes extenuantes na cozinha, no salão, na gestão das compras e na liderança de pessoas, de segunda a segunda, até o fechar das portas, tarde da noite.
Sem glamourizar a maratona, não deixa de ser admirável o que nasce desse malabarismo a que elas se entregaram por amor à profissão, cada uma com seu recorte.
@charoth10
#Elcocineroloko

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